Sobre

Graffiti \Graf*fi"ti\, s.m.
desenhos ou palavras feitos
em locais públicos. 
Aqui eles têm a intenção de 
provocar papos sobre TI e afins.

O Graffiti mudou!

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Foi o Feio quem me alertou: com exatos 34 (trinta e quatro!) anos de atraso, finalmente é lançado em PT-Br (português do Brasil) o clássico de Fred Brooks, "The Mythical Man-Month". Aliás, "O Mítico Homem-Mês". O lançamento é da Elsevier. Em março de 2006 lancei uma série de artigos para comemorar os 30 anos da obra. Acho que foi lá mesmo que eu disse que, apesar do atraso, a publicação em PT-Br ainda valia a pena. Então, parabéns Elsevier pela coragem.

Como a capa indica, trata-se da tradução da edição comemorativa de 20 anos, lançada em 1995 pela Addison-Wesley. Além do original de 1975, o livro apresenta uma série de artigos publicados posteriormente por Brooks, inclusive o também clássico "No Silver Bullet", de 1987.

Parece estranho ou surreal o fato de um livro sobre informática de 1975 permanecer atual, não? Bom, para quem não sabe, o livro trata especificamente de projetos de software. E se ele permanece atual, é porque não evoluímos tanto assim nessa saborosa área. Se você ainda não conhecia essa obra-prima, agora não tem mais desculpas.

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Assim como a Editora Atlas não tem desculpa por não publicar uma 5ª edição de "O Analista de Negócios e da Informação", de José Roberto Saviani. Permita-me explicar. Eu achava que meu atrasadíssimo livro seria o primeiro na língua de Camões sobre e para os Analistas de Negócios. Depois de 2 anos circulando com essa mentirinha, me alertaram sobre a existência do livro do Saviani. O fizeram através de nosso grupo de discussão. E foi uma correria só atrás do livro... em sebos! Sim, porque o livro está esgotado. Foram 4 edições, em 1992, 95, 96 e 98. Justo agora, que o tema está "na moda", a Atlas come bola.

Eu nunca tinha visto a teoria da "Cauda Longa" tão na prática. Nem "best seller" de sebo! O fato é que o livrinho se esgotou em várias lojas. Só consegui um porque a Suzandeise (IIBA-SP) me emprestou.

O livro é curto (100 páginas) e relativamente distante do meu enfoque. Mas é atual, simpático e honesto. Aliás, depois da busca pelo livro, o que alguns membros do grupo querem é conhecer o Saviani. Não conseguimos encontrá-lo. Será que alguém que por aqui passa teria alguma pista?

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Como o assunto é livro e "coisas estranhas", não poderia deixar de comentar a última piada DRM: a Amazon "queimou" cópias de "1984" e "Animal Farm" (ambos de George Orwell) que estariam indevidamente armazenados em Kindles. As cópias seriam ilegais (em território estadunidense), e a empresa se achou no direito de eliminá-las. Sem dó nem piedade...

Quem conhece os títulos, particularmente "1984" (Big Brother!) e viu a história da Amazon não sabe se a vida imitou a arte ou se a arte imitou a vida. Mas ficou com uma certeza: DRM é serviço de porco!

Escrever é Chato?

07 julho 2009

Chico Buarque, na última FLIP, disse que sim. E gerou uma certa polêmica. No Painel do Leitor da Folha de São Paulo teve gente falando que os livros do Chico são chatos. Céus! O cara deve gostar de Paulo Coelho. Ou de Dan Brown, sei lá. Mas o papo aqui é outro: escrever é chato?


Só quando tudo o que você não quer fazer é escrever. Só quando escrever é só uma obrigação. Assim, lógico, o ato de escrever se torna a coisa mais chata do mundo.

Sempre gostei muito de escrever - apesar da nítida falta de domínio da principal ferramenta do escritor: a língua. Mas é por gostar de escrever, por ser teimoso e cara de pau, que tento manter 'n' blogs, twitters, grupos de discussão e afins. E por isso prometi um livro. Aqui começa o problema.

Já é famosa a "briga" de Chico com seus editores. Sempre há um prazo. E Chico é um perfeccionista. Se não existir um prazo, ele nunca terminará um livro. Um prazo, um compromisso, é sempre necessário. Mas o preço é caro: a obrigação, aquele deadline, pode tornar o processo de criação uma chatice.

Já escrevi 4 vezes o mesmo livro. Poucos puderam ver uma primeira versão. Os mesmos viram alguns capítulos da última versão. Ou seja, as outras duas versões foram parar no lixo! Mas, creia, esse processo todo é muito legal, até prazeroso. O problema é a eterna sensação de que muita coisa ainda pode ser melhorada. "Escrever é editar", disse Scott Berkun. Eu completaria: "e editar, e editar e editar ...". O problema está nas reticências. Até quando?

Como não tenho editor, trabalho sem prazo. Já caí na bobeira de colocar um. Três vezes! Agora desisti. Mas entendo que existe 1/2 dúzia de colegas ansiosos pelo meu "primogênito". E é essa pressão - as vezes tácita, de vez em quando explícita - que torna o processo um "pé no saco".

Culpa de quem promete prazos. E não os cumpre!

O projeto Rendiconti foi um dos 8 selecionados, entre mais de 30, para participar do Start-up Lab que aconteceu ontem (23/jun), em Sampa. O evento foi (muito bem) organizado e promovido pela Artemisia e pelo The Hub. E sua proposta era bem simples: possibilitar a avaliação de projetos por 8 especialistas das mais diversas áreas. Cada participante teve 5 minutos para expor suas ideas, sem nenhum tipo de suporte (whiteboard, ppt etc), e mereceu 5 minutos de avaliação. Esse tipo de "blitzkrieg" (ataque relâmpago) tem o singelo pseudônimo "Pitch". Na verdade, a coisa aconteceu em 2 turnos: 2 salas com 4 avaliadores cada. O público pode se inscrever e, salvo grave erro de estimativa, havia cerca de 30 pessoas em cada sala. Via Twitter eu fui mostrando a temperatura da minha barriga... que tava gelada!


Recebi com antecedência um roteiro que mostrava o perfil de cada avaliador. Com o objetivo de não desviar minha apresentação para este ou aquele perfil/avaliador, optei por sumariamente ignorá-los. Funcionou... mas é uma estratégia de altíssimo risco. Quando vi a primeira bancada montada ali, a tremedeira aumentou consideravelmente. Saca só a lista de avaliadores: Kelly Michel (fundadora e presidente da Artemisia), Daniel Izzo (Vox Capital), Daniel Garcia Correa (SENAC - Núcleo de Empreendedorismo), Marcos Souza Aranha, Luis Eduardo Dias, Gilberto Alves Júnior (Amanaiê) e... Normann Kestenbaum, da Baumon. Sim, o autor de "Obrigado pela Informação que Você NÃO me deu!", livro que já recomendei por aqui e que consta da "bibliografia básica" para Analistas de Negócios. Sim... eu deveria ter me preparado melhor. Vivo superestimando minha capacidade de improviso. Mas, quer saber, eu consegui o que queria quando submeti o Rendiconti ao Start-up Lab. Tremendo, mas consegui.

Eu queria, na verdade precisava que o projeto ganhasse novos pontos de vista. Ele só é conhecido pela minha 1/6 dúzia de leitores e por parte dos participantes do FAN. Claro, além dos manos que tocam a Opção Artes Gráficas e alguns chegados. É pouco. Pouco para um projeto que pretende criar uma editora/livraria que seja aberta, livre, antenada e... bem sucedida. 10 minutos de pontos de vista novos são suficientes? Você não sabe quanto!

Temo ter irritado um pouco o Marcos Souza Aranha, quando revelei que meu principal objetivo ali era reforçar o modelo de negócios e obter apoio para começar a tratar dois fatores críticos: i) conseguir autores; e ii) elaborar o modelo financeiro do negócio. Marcos, em sua avaliação, disse que o que eu fiz não foi um "Pitch". E o Normann disse que eu havia transferido para eles uma responsabilidade que era minha. Rimos...

Na segunda bateria, no momento de falar sobre o "quanto" [1], abri para os novos avaliadores as críticas que havia recebido na avaliação anterior. Claro, eu queria críticas novas. E as recebi.

Resumindo todas:
  • Não devo ter problemas com a obtenção de escritores;
  • Mas tenho que pensar seriamente sobre distribuição;
  • Se o projeto nasceu porque não concordo com as regras atuais do mercado editorial, eu devo colocar as novas regras;
  • E, principalmente, devo estudar e elaborar o modelo do negócio.
Depois, em papos mais privados, outras dicas apareceram, inclusive de não-avaliadores. Mas veio de um avaliador uma inesperada: eu não teria demonstrado muita motivação com o projeto. Sorte que consegui explicar para ele que o Rendiconti é um "truco". Claro, tive que mostrar o metamodelo de negócios que adotei desde que iniciei carreira solo, o "Lucro + Troco + Truco"[2]. E a conclusão dele foi igualmente surpreendente: use o "troco" também como "truco"!

Agora é tempo de pensar e condensar tudo. Avaliar e reavaliar opções. E acelerar a implementação do projeto, quando devidamente amparado por um bom plano. O Start-up Lab me ajudou a desenhar os próximos passos. E devo agradecer aqui aos avaliadores e ao pessoal da Artemisia e do The Hub pela cara e rara oportunidade. Lhes devo uma!

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Notas:
  1. Montei a apresentação na sequência 6W's proposta por Dan Roam em "The Back of the Napkin". A saber: Who/What, How Much, Where, When, How e Why. Na primeira bateria eu intencionalmente pulei a "how much". Na segunda falei de US$ 400 bi que giram no mercado editorial mundial e dos R$ 3 bi que rolam por aqui. E disse que 1% desse mercadinho representaria um faturamento anual de R$ 30 milhões. Surtiu o efeito desejado.
  2. Já falei por aqui da tríade "Lucro + Troco + Truco", uma tropicalização do modelo que a Google utiliza com seus colaboradores (70-20-10). Chega a hora de falar um pouco mais sobre o metamodelo, agora que tenho exemplos práticos (em meu bolso). Logo disponibilizarei um post só sobre isso, ok?

O Futuro das Editoras

03 junho 2009

O tema muito me interessa. Desde que decidi entrar nesse mercado (pela porta dos fundos). Quero crer que interesserá também minha 1/2 dúzia de leitores. 
As editoras começam a enfrentar agora o mesmo desafio que as grandes gravadoras encaram há quase 10 anos: a inevitável conversão de seus átomos em bits. Saca só: tiveram pelo menos uma década para se preparar e aprender com os erros dos outros. Pelo visto, desperdiçaram o tempo. A última edição da EXAME (3/jun) tem um artigo chamado "O Papel vai Sumir?". Legal, o texto fala sobre o Kindle da Amazon e as mudanças que batem nas portas das editoras. Conclui, de maneira acertada, que "o papel não vai tornar-se obsoleto". Até aí, tudo bem.
Mas quando começam a tratar do perigoso tema "pirataria", a coisa desanda. Foram ouvir o Sr Roberto Feith, presidente da editora Objetiva. Saca só:

Os prejuízos com a pirataria podem ser mais graves para a indústria editorial do que para a indústria de música. E existe outro ponto importante: os artistas podem viver de shows, mas os escritores não têm uma fonte alternativa de receita.


Lá vem terrorismo de novo. Tipo de artimanha usada para justificar as práticas mais draconianas (como rootkits e outros esquemas miraculosos de proteção de conteúdo etc etc).
Caríssimo Sr Roberto Feith:
  1. A maioria dos escritores que conheço, tanto de ficção quanto de não-ficção, tem sim outras fontes de receitas. São palestrantes, professores, gerentes, coordenadores de cursos, cientistas, roteiristas etc etc. Uma parte deles licencia seus trabalhos para o cinema, TV ou teatro. Ou seja, o que não falta é alternativa de receita para escritores.
  2. O senhor está num mercado que gira cerca de US$ 400 bi por ano no mundo todo (dados da própria EXAME). Qual é a fatia dos escritores?
  3. O medo da mudança (que, saiba, é inevitável) é o pior ponto de partida que Vs Sa e seus colegas podem adotar. Duvida? Então leia de novo a história da Apple, do iPod e do iTunes e do impacto deles no mercado da música. 
  4. Não entendeu ou não concordou? Tente então o mercado de pastelarias. Lá a pirataria não chega, ok?

É o Negócio, Beócio!

03 dezembro 2008

Frase-projétil muito útil em debates com pessoas que iniciam projetos com ferros, caixinhas e código.

"É o Negócio, Beócio!"
também é o codinome de meu livro, que finalmente tem uma data de lançamento: 25 de março de 2009.

Mais detalhes? Só no finito.

Quem disse que aquele projeto está parado? Muito pelo contrário!



Há uma semana o Hailton (arquiteto, desenvolvedor, designer etc) liberou as propostas de layout. Só segurei até agora por absoluta falta de tempo. E também porque ainda não fiz uma opção. Trata-se de um projeto que, como prometi, será 100% aberto. Mas não sei se vou "terceirizar" a decisão do melhor desenho, cores etc. Hehe... (sacanagem).

Quer conhecer as opções (ainda isentas de minhas 'intrometidas')? Então:

Obs.: É claro que aquele slogan não é o definitivo... só foi colocado para preencher espaço.

As iterações são de 2 semanas. Mas o Hailton fez uma (correta) opção por um processo mais *calmo*. Acontece que ele vai gerar um relevante sub-produto: um framework PHP (que, como tudo no projeto, será liberado como software livre). Como já prometi anteriormente, uma versão 'beta' (pública) do serviço só deve rolar entre setembro ou outubro. DEVAGAR e sempre, como um bom projeto mineiro deve ser...

Mas, claro, todas as novidades continuarão pintando por aqui. Pensei em abrir um blog específico para o projeto. Mas seria 'blog' demais né? Dispersão demais d'uma rala audiência. Então vou concentrar a documentação do projeto por aqui mesmo, no Graffiti.

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E passou da hora d'eu brigar (mitigar? haha) contra o maior risco do projeto: Conteúdo! Preciso encontrar escritores. Info básica aos interessados:
  1. A Rendiconti será especializada em livros de TI e negócios;
  2. Ao contrário do que aparece no estudo do layout, há uma editora sim: A Opção Artes Gráficas e Editora (que cuidará de toda a parte burocrática da publicação de um livro (inclusive registro ISBN), além da produção e distribuição das obras);
  3. Não há nenhum tipo de restrição em relação ao formato e tipo de obra. Livros, artigos, revistas, apostilas... o limite é a criatividade dos autores.
  4. Autores que também definirão o valor (líquido) que receberão pelas obras. O preço final será definido pela gráfica, em comum acordo com os autores.
  5. Haverá um trabalho de seleção de obras. Sei que se trata de um processo meio antipático. Mas ele visa exclusivamente a manutenção de um padrão mínimo de qualidade de todas as obras disponibilizadas na loja.
  6. Os autores manterão total propriedade sobre suas obras. Definirão tipo de licença (copyright / copyleft) e opções de distribuição (apenas versão impressa ou versão digital também será liberada?).
Pra quem boiou: a Rendiconti é uma loja virtual que venderá trabalhos que serão impressos por demanda (POD - Print on Demand). Ao autor bastará o cadastro da obra e seu upload para o site. A loja cuidará de todo o resto. Simples assim. Moderno desse tanto! hehe..

Uma idéia solta que há dias pede para ser apresentada aqui: uma forma de contornar a inevitável falta de conteúdo no momento do lançamento da loja é o lançamento de uma revista. Uma revista oficial da loja: independente (leia-se totalmente isenta de patrocinadores); com conteúdo rico (e não matérias curtas e superficiais); bimestral e vendida como as outras obras do site. Vou convidar alguns colegas, particularmente aqueles que já mantém blogs e afins. Mas a porta está aberta para todos que quiserem mostrar seus traçados e idéias para o mundo.

Outra idéia solta: vou documentar melhor o processo de criação de meu livro. Todos os acertos e, principalmente, os erros. Acho que é uma forma de incentivar colegas. Por exemplo, pense no seguinte: se você escrever 1 página por dia, em um ano terá um livro de 365 páginas! Hehe.. eu sei, não é assim tão simples. Mas é uma bela provocação, não? Quer outra? Você pode abrir uma fonte alternativa de receita que gerará, em um ano, mais de R$ 30 mil (um carro zero). Para tanto basta um livro legal, bem direcionado, que custando R$ 30 interesse 1000 pessoas. Dá pra pensar, não?

(Pensar que apelei bem feio agora, hehe. Perdão... é SEXta!).

Rendiconti :: O Projeto

26 junho 2008

Vamos conversar agora sobre como o negócio Rendiconti será desenvolvido. Pode não ter ficado claro no post anterior, mas a iniciativa é composta por duas grandes partes: a fábrica-gráfica, de tijolo, cimento e tecnologia; e o site.

A primeira já recebeu, há cerca de 2 meses, a maior parte do investimento necessário. Uma grande impressora laser já está em operação; o processo de produção já foi delineado; a pequena grande equipe já foi treinada. Esta parte foi antecipada exatamente para que a adequação à nova tecnologia aconteça bem antes da demanda que será gerada pelo site. Com um calculado efeito colateral bastante positivo: a gráfica (que, como eu já disse, pertence aos manos Cacá e Guz) ganhou outra fonte de receitas. Agora ela presta um tipo de serviço (popularmente conhecido como "gráfica rápida") que é inviável quando se tem apenas impressoras 'off-set'.

Merece destaque o maior (e, de certa forma desejado) risco: se a demanda proveniente do site for muito grande teremos problema de escala - e o prometido prazo médio de 3 dias úteis para a entrega das obras pode ser comprometido. Como a aquisição de mais impressoras está, por enquanto, fora de cogitação, foram traçadas duas alternativas:

  1. Outras gráficas da cidade (Vga!) possuem tecnologia similar. Receberão a demanda excedente;
  2. Se a demanda for grande também para elas, de duas uma: ou é boa o suficiente para justificar mais investimentos (impressoras), ou forçará uma parceria com uma gráfica de maior porte (no interior de São Paulo).
Só quando esta parte mais crítica e de certa forma mais cara foi resolvida é que teve início a 2ª parte do projeto: o site.

Há uns 4 anos sou um satisfeito freguês da Locaweb. Não tinha nenhum motivo para buscar outro hospedeiro. Meu servidor contratado, claro, é Linux. E isso gerou o primeiro requisito não-funcional do projeto: a arquitetura tecnológica do site se baseará em PHP e MySQL. Esta opção já cria um necessário filtro de eventuais fornecedores. Vale dizer também que o PHP me deixou muito bem impressionado desde o dia em que converti o finito para o Wordpress. PHP 5, Ajax, MySQL, talvez algumas 'frescurinhas' em Flash - estes são os principais componentes da arquitetura tecnológica do site.

Também não tive nenhuma dificuldade para definir o arquiteto-desenvolvedor: Hailton Ferraz, de Lençóis Paulista e estudante da UNESP de Bauru. Ágil, enviou uma proposta objetiva e bastante clara. Profissional e rápido como poucas grandes e médias empresas sabem ser. Mas eu tinha outras motivações para 'cravar' este projeto no meio do interior e no meio acadêmico:
  • Como um Quixote bêbado espero dar uma contribuição, por menor que seja, para que o pessoal pare de "ir a São Paulo pra trabalhar". O fluxo ganhou um "U-Turn" (tks! Stone, que passou no Intercine de ontem). Estamos no século XXI. Temos Internet. Temos banda larga (capenga mas temos). Ninguém precisa estar em Sampa para desenvolver projetos. Que nossas viagens para lá sejam só para passeio e encontros (profissionais ou não). Ou, no pior cenário, para breves estadias. E só!

  • O projeto do site é um excelente experimento. Por isso o 2º requisito não-funcional é fundamental: o projeto será 100% "open source". Espero que ele seja estudado. Torço para que ele sirva como exemplo em diversas aulas. E vou utilizá-lo para trocar conhecimentos com a turma de Analistas e Desenvolvedores que convivem comigo no nosso grupo de discussão e no recém-nascido Fórum FAN.br. Imagine que exercício legal: estarei fazendo o papel do freguês! Vamos praticar: a modelagem do negócio e seus processos; o desenvolvimento e gerenciamento de requisitos; gerenciamento de projetos; um processo de desenvolvimento enxuto e ágil, iterativo e incremental; etc etc. Tudo de forma aberta: como eu já escrevi aqui, todos os artefatos gerados serão públicos - e liberados para uso.
Ô FUQ! (Frequently Unasked Questions):
  • Bah! Então o projeto vai demorar pra caramba, não?
    Não! Há um negócio aqui, não se esqueça. Por mais que pareça uma brincadeira, o negócio é sério. Aliás, parecer uma "brincadeira" - no sentido de ser divertido - é uma qualidade que todo projeto de software deveria ter. Desde que seja uma diversão séria!
    Então o projeto tem um prazo sim: que flutua* entre setembro e outubro de 2008.
    * Flutua tanto quanto o custo: a forma de aquisição (que ainda tratarei naquela esquecida série "Trabalhando em Casa") é formalmente conhecida como "Aquisição Progressiva". Há um chute inicial (como em 100% dos projetos), mas valores e prazos serão ajustados na medida em que o projeto evoluir.
    * Tento provar assim que aquele "mantra" que diz que só o escopo pode flutuar é pura "forçação de barra".

  • E qual é o escopo do projeto?
    Mostrei no post de ontem que ele tem duas partes principais: o cadastramento de obras e a venda delas. Pouca coisa além disso já foi debatida. Como ocorre em praticamente 100% dos projetos de software, é impossível ter uma visão de todo o escopo em seus momentos iniciais. Neste momento (que em alguns processos é conhecido como "Incepção") buscamos uma visão que chamo de "2km de extensão e 2cm de profundidade". É parte dos exercícios.

  • Tanto barulho para um projeto de um cara só?
    O Hailton é o contratado, arquiteto e principal responsável pela execução do projeto. Mas quem disse que é um projeto de um cara só? Claro que estou pessoalmente envolvido em sua execução, não apenas como o (chato) freguês. Mas já tivemos a colaboração de uma dezena de "voluntários". Talvez tenhamos contribuições de dezenas, centenas de pessoas. Quem pode dizer? O projeto é aberto e livre. Se for um bom imã, atrairá esforços até de onde menos esperamos. É esperar e ver no que dá.

  • E como se gerencia um projeto assim?
    Honestamente? Não sei. É meu primeiro projeto de verdade que nasce "open source" - livre. Ferramentas para a estruturação e gerenciamento do conhecimento (requisitos!) adquirido serão necessárias. Mas essa parte até que é facilmente resolvida com os repositórios conhecidos. O maior problema estará no processo de gerenciamento. Taí uma bela oportunidade de aprendizado.

  • Qual processo de desenvolvimento será utilizado?
    Enxuto e ágil, Iterativo e Incremental. Talvez a gente crie um nome para ele, mas isso não importa. Surrupiaremos as boas idéias (e práticas) de propostas como OpenUP, FDD e até XP. Mas não seguiremos nenhum processo de forma cega, como algumas pessoas (ainda) acreditam que seja possível. Neste momento só há um princípio (ou requisito) escrito em pedra: o processo deve facilitar o aprendizado, em todos os sentidos. Só!

  • Os modelos, tanto do negócio quanto do projeto, são um tanto românticos, não?
    Como dizia uma bela psicóloga que um dia me deu um tratamento (informal), "não há altruísmo". É claro que eu espero ganhar muito com o projeto, em todos os sentidos. Há a perspectiva de um belo retorno financeiro. Há a publicidade "orgânica" - tanto do negócio propriamente dito quanto do meu livro que, claro, representa a nova ponta-de-lança do meu "lucro" (daquele papo "Troco - Lucro - Truco"). E, obviamente, espero aprender muito - particularmente com o projeto. Ou seja, não sou assim tão "bonzinho e generoso".

  • E se der tudo errado?
    Tudo é muita coisa. No pior cenário todos os envolvidos terão aprendido alguma coisa. O projeto é relativamente simples e "barato" (não estou apostando minha vida nele - meu negócio principal (meu lucro), o finito, seguirá com ou sem o Rendiconti). Mas, de certa forma, "aposto" meu nome aqui. Falhas no projeto ou no negócio, com certeza, gerarão uma péssima impressão. Mas... como dizia o saudoso e vitorioso Vicente Matheus: "quem sai na chuva é pra se queimar".

Rendiconti :: O Negócio

25 junho 2008

Antes, porém, uma necessária explicação sobre o nome. Rendiconti é um termo italiano* que significa "Prestação de Contas". O utilizo com frequência no finito, para prestar contas de todos os eventos abertos que realizo. A sacada do Guccia na escolha deste nome para sua revista é genial. Surrupio-a sem medo de ficar com a cara vermelha de vergonha.

Aprendemos com os outros, com experiências de outras pessoas. Em aulas, livros, bate-papos presenciais ou virtuais - não importa. Todo aprendizado é um evento social, por solitário que seja. "Social"? É, eu quis dizer que tudo que aprendemos vem de outras pessoas.

Quando invertemos este fluxo, tentando ensinar outras pessoas, de certa forma estamos fazendo uma "Prestação de Contas". É uma retribuição - mas sempre seremos avaliados pelo que agregamos àquele conhecimento adquirido. Por isso o periódico do Círculo Matemático de Palermo se chamava Rendiconti. O conceito é genial. A provocação, impagável!

Por isso não pensei duas vezes ao selecionar o nome desta nova empreitada. Aliás, depois de tantas idéias jogadas aqui, está aqui a primeira que pego para realizar. O título original daquele livro do Domenico de Masi, "Criatividade e Grupos Criativos", é "La Fantasia e la Concretezza". Sabe-se lá porque a Sextante, seguindo o (mau) exemplo das distribuidoras de filmes, não fez uma tradução literal do nome. Não importa. Para De Masi, o criativo não apenas fantasia. Ele também deve ser capaz de concretizar suas idéias. Antecipando a confissão de que não estou sendo nada criativo, topei o desafio.

Para quem pulou o prólogo, explico que tudo começou porque vou publicar meu primeiro livro. Ia fazê-lo da forma tradicional (que tem mais de 500 anos!). Imprimiria uns 1000 exemplares e ficaria aguardando que generosas almas os levassem para casa (ou escritório). Modelo pra lá de ultrapassado: Muita grana parada. Considerando que incentivo a cópia e a distribuição de versões digitais do texto; considerando que as centenas de pessoas que participaram de meus eventos já garantiram (sem custos adicionais) sua cópia digital; e considerando que hoje em dia se lê muito pouco, qual demanda eu teria? Quanto tempo levaria para esvaziar aquela pilha de 1000 volumes?

Mas a questão não é só essa, meramente comercial (ou financeira, como queiram. Aliás, já disse por aqui, não espero ganhar $ nenhum com a venda do livro). A principal questão é outra: trato o livro como se trata um software: ele é vivo - tem versões. A última versão pública é a 0.6. Em breve soltarei capítulos de uma versão que estou chamando de "release candidate". A versão comercial será, obviamente, a 'um ponto zero'. Mas morrerá ali? Duvido...

Agora mesmo trabalho com 3 ferramentas (técnicas) novas, de modelagem, que espero incorporar ao trabalho. Outras surgirão, motivando a publicação das versões 1.1, 1.5, 2.0 e assim por diante. Com tal processo de desenvolvimento, a impressão de grandes volumes (a única que se justifica financeiramente em gráficas tradicionais) seria um tiro no pé. Motivações mais do que suficientes para a criação de um novo negócio. Nasce assim a Rendiconti!


O Modelo do Negócio

Como eu disse, não é nada original. Surrupia sem dó nem medo partes dos modelos da lulu.com e do SafariU, do grupo O'Reilly. Trata-se de uma gráfica e editora do século XXI: só gasta papel e tinta quando o cliente confirma a aquisição de um livro (ou artigo, apostila, revista, etc). Existem dois processos principais:

  1. O autor publica uma obra.
    Ele faz o upload de um arquivo com toda a obra. E tem a possibilidade de configurar diversos parâmetros como: preço, material, tipo de capa, opção de venda da versão digital, extensões da obra etc.
    Quando aprovada pelo editor, a obra passa a integrar o portfólio da loja Rendiconti. Aparecerá na 'vitrine', de acordo com sua classificação.
    Restrições: i) a Rendiconti trabalhará exclusivamente com livros técnicos das áreas de TI (Tecnologia da Informação) e Negócios; ii) a editora se reserva o direito de recusar obras que não atendam o padrão mínimo de qualidade esperado ou que fujam de seus temas principais (veja considerações abaixo).

  2. Um cliente adquire uma obra
    A loja Rendiconti opera como uma loja virtual comum. Há o inevitável "carrinho de compras" e coisa e tal. Claro, brigaremos para criar metáforas mais interessantes e originais. Mas não há muito o que inventar aqui.
    Ops, há sim! O cliente pode personalizar a obra adquirida: capa, tipo de papel, dedicatória, logo da empresa... sempre respeitando as restrições configuradas pelo autor.
    A "contribuição" do SafariU: o cliente pode montar um livro ou apostila inédito, selecionando capítulos das diversas obras disponíveis na loja. Poderá inclusive fazer o upload de algum material seu para ser incorporado. Invenção pequena é bobagem. Personalização tímida é enganação!
    Outra novidade, o processo: a obra só será impressa após a confirmação do pedido. Toda a operação estará baseada em Varginha, Minas. Mas o prazo médio de entrega dos pedidos girará em torno de 3 dias úteis - prazo equivalente ao das lojas tradicionais.
Imaginem, então, as diversas possibilidades (cenários):
  • Um professor pode elaborar um material, mixá-lo ao conteúdo disponível na Rendiconti e gerar apostilas muito especiais para seus alunos;
  • Uma empresa pode elaborar um material de treinamento e terceirizar sua confecção (e até a revisão!). Desta forma, pode configurar para que sua obra não seja pública - ou seja, não aparecerá na vitrine da Rendiconti;
  • Claro, meu livro e seus 12 (?) capítulos estarão ali, exclusivamente ali na loja Rendiconti. Nas mais diversas versões: quer só a parte de modelagem de negócios, ou só o módulo de engenharia de requisitos? Tudo bem. Quer comprar apenas um capítulo? Só a versão digital? Só a apostila? Definitivamente: o cliente manda. E a gente tratará de entregar exatamente o que ele precisa.
É óbvio, espero que vários autores vejam na Rendiconti uma oportunidade de prestar contas, de dar à luz as suas obras. Aliás, neste início de empreitada, é este o meu maior desafio: atrair autores. Claro, respeitarei tudo o que caracterizou a Rendiconti original. Não importa se você é professor ou estudante, doutor ou iniciante. Não importa se você está em Quixeramobim, na Mutuca ou na Lagoa dos Patos. E não importa se você é desenvolvedor, coordenador de projetos, administrador, consultor, professor, estagiário ou estudante. Saca a calda longa? Então, há mercado para tudo - há espaço para todo mundo.


Considerações semi-finais
  • "Não temes que lhe roubem o modelo de negócio?"
    Tsc... que papo mais anos 2000, pré-bolha. Conheces o dito "ladrão que rouba ladrão"? Então, não disse que surrupiei e remixei idéias de duas empresas estadunidenses? Então pq eu deveria reclamar se alguém buscar inspiração aqui?
  • Aliás, espero que busquem bem mais. Como mostrarei com mais detalhes no próximo post, este é um projeto 100% aberto. Todo o código e demais artefatos gerados (inclusive o modelo do negócio) serão disponibilizados com licenças Creative Commons e GPLv3.
  • Portanto, quem quiser copiar, poderá obter bem mais que uma simples idéia. Quer montar sua própria loja? Que tal uma especializada em livros "Boa Vida Boa" (culinária, viagens, esportes etc)? Que tal uma só com obras de cultura inútil? Que tal uma só para escritores renegados? Como eu disse (depois do Chris Anderson), há espaço e mercado para tudo. Já sugeriram até que eu escrevesse um livro só para contar essa história. Pode? Rss... até o próximo!

Epílogo ou Prólogo?

24 junho 2008

Clareando: é epílogo da Trilogia Pré-Histórica (I, II, III). E Prólogo de uma nova história.

Quem por aqui tropeça de forma mais ou menos regular já sabe que estou prestes a publicar meu primeiro livro. Estive prestes a cometer uma incomensurável cagada!

Muito falo, neste pedaço e em meus eventos, sobre Inovação e Criatividade. Ao criticar idéias antigas ou retrógadas, não hesito em engatar um batido: "hmm.. que coisa mais anos 70 (ou 80 ou 90)!". Incoerente pracas, quase cometo um negócio bem anos 50. Para ser mais preciso, bem 1450!!

Me iludia com a pseudo-modernidade de algumas idéias (requisitos fundamentais) que devem caracterizar meu primogênito:

Ok, as idéias são realmente legais, antenadas. Mas, no final das contas, seriam condenadas a viver como uma montanha de 1000 exemplares impressos de um livro. Está aqui o que chamei de "cagada". Não é só uma questão de eco-chatice (quantas arvorezinhas morreriam...), até porque o livro usaria exclusivamente material reciclado. Mas como conviver com tanta grana 'parada'? (Creia, é muita grana - mesmo se vc tem muita. Paga praticamente um carro zero, se você quer ter uma idéia de 'grandeza').

Mas, que sorte, a "cagada" ficou na quase. E a guinada estratégica de 180° acaba de gerar um Projeto e um Negócio. Ambos atendem pelo mesmo nome: Rendiconti!

E, claro, cada um merecerá um post de apresentação.

Mas já? Pois é, com o epílogo (que será publicado na sequência) mostrará, a publicação integral da Trilogia Pré-Histórica é para ontem. Sem trocadilhos! Para quem perdeu a trilha da história:

Não foi por acaso que Domenico de Masi recuperou a história do Círculo Matemático de Palermo em um livro chamado "Criatividade e Grupos Criativos" (de 2002). Aquela associação, fundada em 1884, apresentava em seu núcleo um conjunto de características (ou Valores, como queiram), muito caro nos dias de hoje. Modernos empreendimentos, particularmente aqueles montados para a criação de software livre, apresentam muitas dessas características. Por isso este 3º e último tomo (volume) tratará especificamente delas.

Break-chororô: e duas curiosidades:
  • Guccia, o idealizador do Círculo, não aparece na Wikipedia, nem em sua versão italiana! Fui buscar sua biografia em um site inglês. Parece que ainda hoje os italianos renegam sua importância, como o fizeram na época da fundação do Círculo. Azar dos italianos...
  • Quando Scott Berkun começou a escrever "Mitos da Inovação" ele pediu, via blog, referências e dicas. Quando fui sugerir o livro do De Masi, descobri que ele não tem nenhum título publicado em inglês! Azar dos estadunidenses...
A inovação do Círculo, que De Masi chama de "genial", começa pela sua organização: é uma rede. Flexível e espalhada por todo o planeta - quase 100 anos antes d'algum milico sonhar a Internet. A tecnologia utilizada estava na gráfica (tipografia) que imprimia as Rendiconti e nos barcos, trens e cavalos que distribuiam a publicação nos quatro cantos do mundo. De Masi:
A modernidade inteiramente pós-industrial dessa rede encontrava-se não só na sua estrutura, estranha ao burocratismo e ao formalismo das academias daquela época, como na centralidade absoluta da sua dimensão científica, que era mais importante do que qualquer outra dimensão espúria, com frequência determinante em outras sociedades análogas.
São 5 as características que tornam o Círculo Matemático de Palermo uma organização única, visionária e, como diz De Masi, "pós-industrial":
  • Interdisciplinar: física, engenharia, arquitetura e matemática. O Círculo e, consequentemente, as suas Rendiconti, tratavam de tudo que girava em torno da matemática. Além disso, eram acolhidos "estudiosos das mais diversas inclinações".
  • Internacional: "O Círculo não faz e não fará nunca uma distinção de nacionalidade ou de raça entre os matemáticos". Isso numa época em que o mundo, particularmente a Europa, já fervilhava com suas pseudo-diferenças. Não se tratava apenas de publicar artigos de pessoas dos mais diversos lugares. As Rendiconti também eram distribuídas ao redor do globo.
  • Interclasses: professores universitários e de nível médio tinham direitos iguais. Lógico que se admirava os "matemáticos mais geniais do mundo" mas, no dia-a-dia do Círculo, todos compartilhavam os mesmos direitos (inclusive de voto). Mais: "os jovens eram encorajados e ajudados nos seus estudos". Tanto que muitos estudantes publicaram suas próprias pesquisas na Rendiconti.
  • Gosto Estético: Guccia "sempre privilegiou a qualidade das publicações, a velocidade da impressão, o nível cultural dos amigos e sócios. Em suma, o conteúdo. Mas isso não lhe impediu o culto da forma e da estética".
    Tanto que não poupou esforços para que a tipografia tivesse os melhores recursos da época. As Rendiconti eram belas, agradáveis. Mesmo que boa parte de seu público não se importasse muito com esse 'detalhe'.
  • Voluntariado: assim como no universo do software livre, grande parte do trabalho no Círculo, particularmente dos articulistas e revisores, era voluntário. Não remunerado. As receitas geradas com a venda das assinaturas (300 liras de "contribuição perpétua") eram todas revertidas para a manutenção da gráfica e publicação das Rendiconti.
De Masi conta a história de vários outros grupos que foram esquecidos quando o mundo se colocou de joelhos perante as idéias de Taylor, Ford e afins. As recupera rotulando todas com um mesmo adjetivo: são "pós-industriais". São modernas e mais humanas. Valorizam o indivíduo e não as "massas". Mas foi a história de Guccia e de seu Círculo Matemático que me pegou. E me influencia. E inspira. No epílogo falo mais sobre a inspiração e seus frutos.

Pois é, demorou! O Tomo (ou Volume) I é do dia 17abr08. Segue nossa pré-história:

Mais que as reuniões periódicas de cientistas, seria a segunda iniciativa que tornaria o Círculo Matemático de Palermo uma associação memorável. Guccia, o idealizador, fundador e principal patrocinador, como vimos no episódio anterior, montou uma tipografia na sede do círculo. Não era uma 'gráfica' comum. Era especializada em 'escritos' matemáticos - dotada de recursos técnicos que permitiam a correta composição e impressão de fórmulas, gráficos e dos mais diversos símbolos matemáticos. Lembrem-se, estamos no final do século XIX - mais precisamente, em 1893. Ou seja, ainda não existiam impressoras a 'laser' e afins.

Rendiconti - este é o nome da segunda atividade do Círculo. Segundo Edmund Landau, a "melhor revista de matemática do mundo" [1]. A gráfica montada por Guccia servia quase que exclusivamente para a impressão da Rendiconti.

Na revista eram publicados os resumos de todas as reuniões do Círculo e, principalmente, artigos técnicos. As colaborações vinham de todo o mundo, inclusive dos EUA. Era uma época quente, politicamente falando (pouco depois estouraria a 1ª guerra mundial). Mas isso não impedia que ingleses, franceses, alemães, russos e italianos convivessem naquele mesmo espaço.

Guccia estava "pessoalmente a par de todos os campos das ciências matemáticas". Sendo assim, ele trabalhava como editor - avaliando cada contribuição. Em 1914 as Rendiconti tinham cerca de 800 páginas. E eram impressas cerca de 1250 cópias. Os assinantes, assim como os colaboradores, estavam espalhados por todo o globo. O Círculo, vale notar, cuidava da redação, publicação e comercialização da revista.

Veio e guerra e a sede do círculo foi bombardeada. Guccia havia morrido um pouco antes, também em 1914. A publicação das Rendiconti seria retomada apenas nos anos 1950, "para satisfação dos maiores cientistas do mundo. Von Neuman [2] escreveu: 'A Rendiconti certamente ocupa um lugar único entre as publicações matemáticas internacionais; além disso, é muito satisfatória a circunstância na qual ela continua a se desenvolver, segundo as grandes tradições'".

Notas:

  1. Toda a pré-história, incluindo citações e imagem, foi surrupiada de 2 livros de Domenico de Masi:
    • A Emoção e a Regra - José Olympio Editora (1989);
    • Criatividade e Grupos Criativos - Sextante (2002).
  2. Está aí um nome, o húngaro Von Neuman, que liga nossa pré-história com a história.
  3. Relíquias? Antiguidade? Modernidade! O Círculo Matemático de Palermo e as Rendiconti possuem características que são muito valorizadas (e procuradas) atualmente. Encerrarei esta trilogia, com o próximo artigo, comentando essas particularidades. E o epílogo tentará mostrar a razão para tanta (pré) história. Inté!

Pré-História - Tomo I

17 abril 2008

Nossa história, a história de TI, começou no século passado, na década de 40. Muitos se lembrarão de experimentos anteriores, dos ábacos e afins, mas nossa história, de fato, começa com aquela máquina que deveria decrifrar códigos nazistas. Uma história que começa com projetos atrasados, bugs... tudo que nos caracteriza até hoje. Mas é uma história tão contada, e tão nova, que não carece de novas narrativas. Pelo menos, não de minha parte.

Mas temos uma pré-história. Antecedentes de nossa história que, como a História (com H maiúsculo), pode ser dividida em fases. Lá na História temos os períodos eolítico, paleolítico, mesolítico, neolítico e a era dos metais. Um dia dirão, revendo nossa história, que vivemos hoje a era dos metais. E dá-lhe ferros e caixinhas. Vivas aos guardiões dos templos que, não tem muito tempo, chamavam-se CPD's. Viva! Mas eis que voltei para a história, na busca por um gancho que me leve um pouco antes no tempo.

O trecho de nossa pré-história que me interessa (agora) tem início no final do século XIX. Merece um nome, e talvez o mais indicado seja NEOlítico. Começa longe dos pólos informatas. Aliás, ainda não existiam informatas e muito menos pólos como o Vale do Silício, Recife, Blumenau. Esse curto período de nossa pré-história é parido em Palermo, capital da Sicília - aquela grande ilha do Mediterrâneo que parece "chutada" pela bota Itália. Sim, na mesma época e no mesmo local a família Corleone se preparava para gerar seu filho mais famoso. Mas essa é outra história.

A nossa começa em 1884, com a fundação do "Círculo Matemático de Palermo". Seu idealizador, fundador e principal patrocinador foi Giovan Battista Guccia, Doutor em Matemática pela Universidade de Roma. Tão logo obteve seu doutorado, Guccia voltou para a terra natal, Palermo, e transformou um dos imóveis da (abastada) família em um Círculo. Estranha associação para uma cidade que ainda não tinha nem mesmo uma faculdade de Matemática.

Guccia ignorou as limitações e uma certa antipatia de seus conterrâneos. Firme, em 1888 publicou o estatuto do Círculo explicando se tratar de "uma sociedade científica que tem por objetivo o incremento e a difusão das ciências matemáticas na Itália". Um trecho curioso deste estatuto mostra sua única cláusula escrita em pedra: a sede é Palermo e ponto. Nunca ninguém a questionou.

O Círculo se caracterizava por duas grandes iniciativas, distintas mas totalmente interligadas. As Assembléias, que ocorriam quinzenalmente e onde não se admitia "qualquer comunicação ou discussão sobre assuntos estranhos à índole científica e ao objetivo da sociedade".Os participantes eram locais, mas vários encontros contaram com a presença de ilustres matemáticos de todo o mundo. Na realidade, para muitos deles, o Círculo era o único motivo para a passagem pela Sicília.

Não havia quem não ficasse maravilhado com a Biblioteca que Guccia montara na sede do Círculo. Mas era um outro cômodo que chamava a atenção: o quarto onde Guccia construiu uma tipografia. Uma gráfica totalmente especializada em escritos matemáticos e científicos.


A pré-história continua...
... e lá revelarei minhas fontes e referências bibliográficas.

Rendiconti da Frigideira

03 janeiro 2007

Rs... meus títulos e tags devem deixar qq um (inclusive os mecanismos de buscas) um tanto (p)irados. Estratégia boa: força você a ler o conteúdo do post pra saber do que estou falando, hehe.

Meu Rendiconti tratou só das "previsões" genéricas. Acontece que na cola da bola de cristal líquido fiz também algumas "profecias" diretas sobre o mercado de TI, uma loucura que chamei de "Lógica da Frigideira". Vish.. errei quase tudo. Pior: sigo acreditando na tal lógica!

Foto surrupiada de RobertPaulYoung (Flickr).

Escrevi lá em janeiro de 2005 que a Macromedia compraria a Bea e seria depois engolida pela IBM. Disse também que a Adobe iria parar na bocarra da MS. O único fato concreto até agora é a aquisição da Macromedia pela Adobe. Sigo acreditando que a Adobe (Macromedia) precisa colocar o pé mais fundo (no stack). O Apollo fica só na camada de apresentação. De qq forma, o Apollo confirma minha teoria. E quase chega no calcanhar da minha "GUI bem gorda". Sei lá, mas a aquisição da Adobe pela IBM faz cada vez mais sentido para mim. Acho que ele completa o Lotus Workplace. Na verdade pode dar uma nova vida para ele, que vive escondido no pré-nome (Lotus) e no pseudo-anônimo (Notes). Quer diferenciar seu servidor de aplicações JavaEE? Quer uma solução de portal corporativo realmente inovadora? Pega carona no Apollo. Sun e Bea não parecem ter caixa para tanto.

Quando falamos de Web Office, Office 2.0 e afins, só pensamos em MS e Google. No campo das RIAs (Rich Internet Applications), nada está definido. E a Adobe está com um arsenal e tanto. Sem falar em seu market-share: Quantas máquinas possuem Acrobat e/ou Flash instalados?

Outros chutes que dei foram específicos para o nicho 'popularmente' conhecido como ferramentas de BI (Business Intelligence). Errei todos - nada aconteceu. O mercado segue muito fragmentado. Não volto a falar de nomes, mas sigo apostando numa considerável onda de fusões. E os compradores serão sim os tradicionais fornecedores de bancos de dados (IBM, Oracle, MS). Falta o mercado começar a comprar um pouquinho mais. Como a onda agora é SOA, talvez BI fique esquecido por uns 2 anos. "Esquecido" é uma forma de dizer: "abaixo da sétima posição na lista de prioridades dos CIOs".

Por último falei em consolidação de distros Linux. Citei especificamente Novell e Red Hat. Ambas cresceram. O Chapeuzinho Vermelho papou até o 'lobo mau' Fleury (JBoss). Mas nada de redução no número de distribuições. O Ubuntu agora corre por fora, ganhando popularidade e fanáticos (como este que vos escreve). Mas só um grande choque (Vista?) pode causar alguma alteração no mercado de SOs. Não vejo nenhum acontecendo até 2008.

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Para encerrar o assunto, que é espinhoso e traiçoeiro, adiantarei aqui algumas 'previsões' sobre fusões, aquisições e passamentos (Prazo de Validade: 03/Janeiro/2009):
  • MS-Yahoo! (o casamento mais adiado dos últimos tempos. Agora vai!).
  • GoogleBay: a Google precisa de novas fontes de receitas.
  • Oracle+Sun: para brigar com a IBM. O mundo Java arrepiará, mas é uma fusão factível sim. Eu diria que elas estão cada vez mais "feitas uma para a outra".
  • Apple+Sony? Pq não? Aposto R$1,99... ou o salário do Jobs... hehe.

Rendiconti é "prestação de contas" em italiano. Era também como se chamava o periódico criado por Giovan Battista Guccia para divulgar estudos matemáticos elaborados pelo Círculo Matemático de Palermo. A revista Rendiconti foi o primeiro repositório 'open source' do mundo da informática/matemática. Mas isso é outro assunto*. Vou usar o nome aqui para fazer a primeira prestação de contas do Graffiti. Em janeiro de 2005 publiquei uma série de 'previsões' para o biênio 2005-2006. Tá na hora de validar meus chutes.


1. Conservadorismo dos Investimentos em TI
Ainda não tenho os números, mas com certeza os investimentos em TI cresceram mais que o PIB. Eu falava de 10% ao ano (apostando em um crescimento de 5% PIB). Se ficou em metade disso, 5%, tá de bom tamanho. A questão não era o volume mas o perfil, que eu chamei de "feijão com arroz". Vimos alguma coisa inovadora saindo dos departamentos de TI de Pindorama? Pois é. Mas essa é fácil demais. Nem vou contar pontos.

2. Maturidade do Mercado
Falei que o mercado de prestadores de serviços de TI permaneceria praticamente inalterado. Apesar das imensas oportunidades e dos incontáveis boatos, foi o que aconteceu. Não sei se alguém explica porque demora tanto uma onda de "fusões & aquisições" que dê uma sacudida no mercado. Também não se sabe porque as 'gringas' optam por começar do zero quando chegam por aqui. Nossa área adora mistérios.
Mas foi neste ponto das 'previsões' que cometi um grande engano, o que me deixou muito feliz. Falei que em 2005 apenas 10 empresas atingiriam o nível 2 do CMMI. Bom, só na ISD aparecem 40 empresas nesse nível. Falei também em 2 empresas no nível 3. São mais de 12! Resta torcer para que todas recuperem os investimentos.

3. Exportação de Software
Falei que não atingiríamos 20% da meta colocada pelo Governo Federal, que era de US$ 2 bi. Ficamos em US$ 350 milhões. Mas essa também era fácil. Todo mundo sabia, menos o Governo e nossa 'prensa' especializada. 'Prensa' que insiste que a culpa é só da carga tributária e da legislação trabalhista. Assim, seguiremos insignificantes no mercado mundial de software. Gente, o que falta é PRODUTO (criatividade e inovação). E não me venham com urnas, por favor!

4. SOA (Service-Oriented Architecture)
Outra fácil: só falei que SOA não pegaria, dentre otras cositas. Mas ainda vai pegar...

5. SaaS (Software as a Service)
Disse em jan/05 que não veríamos nenhuma oferta consistente de software vendido como serviço. Fica implícito no texto que eu me referia à uma oferta genuinamente tupiniquim. Agora, no finalzinho de 2006, pintou por aqui a Salesforce. De certa forma mostrando que meu temor era verdadeiro.

6. Especialização
O mercado tá um cadinho mais exigente quando falamos de contratações, mas segue com aberrações do tipo "Analista Programador que domine Java, SOA, MDA, UML, Delphi, VB, ASP, HTML, Photoshop...". Ok, exagerei. Mas o mercado segue contratando mal. Outra fácil de se prever. Afinal, o turn-over no RH é menor que aquele das áreas técnicas...

7. Open Source X Microsoft
Hmmm, falei na MS perdendo 15% do mercado de desktops. Apostava mais na Apple do que no Linux. Errei feio: o market-share não deve ter movido um único ponto percentual. Resta ver o tamanho do estrago do Vista nos próximos anos.

8. Colcha de Retalhos
Confunde com a "previsão" #4, acima. Na verdade, mais um chororô do que uma "previsão" de verdade.

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Aliás, a lista completa é mais uma "wishlist" temperada com ceticismo do que um conjunto de previsões. Por isso acertei mais do que errei. Querendo justamente o contrário: queria que a lista provocasse. Hehe, bobinho.

Bobo mas teimoso. Tanto que ainda nesta semana publico minhas "previsões" para o biênio 2007-2008.

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* Conheci o Círculo Matemático de Palermo em duas obras de Domenico de Masi: "A Emoção e a Regra" (que trás inclusive alguns fac-símiles das edições das Rendiconti) e "Criatividade e Grupos Criativos". Já recomendei tanto a leitura de ambos que nem preciso repetir. Falta a cambada que quer exportar software entender que "o criativo cria a si mesmo".