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graffiare #451

24 março 2008

... No caso da indústria de software, a proteção [intelectual] é inimiga da diversidade e da inovação.

...

Os estudos sobre o assunto mostram que a proteção intelectual se provou desastrosa para a indústria de software por uma razão: esse não é propriamente um campo que vive de grandes descobertas, mas sim de uma série de pequenas inovações cujo mérito é justamente aprimorar o que já existe. Para dar vida a uma nova idéia, portanto, o inventor precisa necessariamente ter acesso livre ao que já existe. A imitação é um fator fundamental para a inovação, e as patentes se transformam em óbvios obstáculos. Depois da lei de proteção intelectual dos Estados Unidos, houve uma desaceleração no ritmo de evolução dos programas de computador. Liberar a pirataria, nesse caso específico, teria sido uma solução mais lucrativa para o país. Há ainda outras situações em que a lei de patentes no mundo tecnológico não chega a atrapalhar, mas em compensação não surte efeito algum - é apenas obsoleta e inútil.

...

Certas empresas na área de tecnologia já optam por não patentear seus inventos, porque eles estão se tornando ultrapassados da noite para o dia. Não compensa, portanto, enfrentar toda a burocracia por algo que logo se torna desprovido de valor. A discussão sobre patentes que faço aqui ajuda a reforçar a idéia de que a interferência do estado em algumas áreas parece vital, mas é, para o dizer o mínimo, desnecessária, quando não claramente prejudicial.

- Eric Maskin (Nobel de Economia em 2007, na Veja da Semana).

Quem diria que patentes e leões gerariam piadas? Há três meses rolou uma. Hoje pintou inspiração para outra. Como se eu não tivesse nada pra fazer. Mas, como dizia um velho VP, "SEXta é FODA"[1]. Vamos lá:

.:.


Num futuro não muito distante, tá lá o molequinho na frente do micro. Para desgosto dos pais, ele passa dias e noites ali. Olhos vidrados, bebericando Purple Cow[2], levando seu avatar para passear nos maravilhosos cabarés romenos da Life 3.0. Há três meses tenta encontrar o avatar da Anya, uma garota de programas virtuais que é um remix de Angelina Jolie (boca), Jennifer Connelly (olhos e cérebro) e Camila Pitanga (todo o resto).

Purple Cow, que a massa gosta de chamar de "drink da vacaloca", é uma mistura de café ultraforte com pinga extralight, ambos de Varginha. É exportado para todo o mundo. Ambientalistas reclamam do nome e questionam a fórmula: dizem que tem algumas gotas de "tesão de vaca", um tipo de hormônio usado por veterinários para combater a mansidão bovina. O fato é que basta uma latinha de 250ml para o cara ficar 10 dias ligadão... sem um pingo de sono. Combinação perfeita para a agitada e insone Life 3.0.

João, o molequinho, tá perto de encontrar Anya. Recebeu uma dica valiosa de um cafetão virtual búlgaro: "siga o coelhinho branco". Cansado de escutar "Anya" (um instrumental do Deep Purple), nosso herói coloca uma versão remixada de "Future Days" (Can, 1973) para tocar. "Kraftwerk é para principiantes", ele dizia. Seu avatar, MC Selim [3], é ultracool. Um coelho branco. Seguir o coelho branco.

De repente, sua mãe entra em prantos em seu quarto. João detesta quando entram sem avisar, mas não teve tempo para reclamar. Sua mãe dizia, chorosa: "A polícia federal tá aí na porta, vieram te prender". Ela mal terminou a frase e João já estava devidamente imobilizado pela algema-gargantilha. Totalmente imobilizado, foi levado para o camburão por dois 'polícia'. Só no interior da Fiorino 98 um policial apertou um botãozinho da gargantilha que liberava a fala. João foi logo dizendo: "Pô mano, que foi que eu fiz?"

"Mano é o senhor seu irmão. Aliás, foi ele quem confirmou: o senhor é um usuário de Linux, certo?"

"Linux?!? Eu... não... eu adoro o..."

"Tudo o que você disser será usado contra tu memo, sacô? Seguinte: não sou preconceituoso, compreendo tua pobreza, mas... você tá ferrado mano. Usar o Linux sem o cupom é crime federal e global. Tu tá ferrado mermão". O guarda falou travando novamente a gargantilha. Queria uma viagem tranquila até o DP.

O delegado, no DP tragando um Derby, foi logo dizendo: "Prezado João, pois é, tu tá ferrado mermão. Olha, não sou preconceituoso, fico sensibilizado com sua lamentável situação financeira, mas... tu tá ferrado mano. Linux sem cupom?!? tsc, tsc..."

João: "Mas... cara. Veja bem, foi um deslize. Eu juro, nunca mais vou fazer isso. Se você me liberar agora eu juro que paro na primeira banca e compro uns cupons pré-pagos, de 2 horas... E prometo que vou fazer uma poupancinha pra comprar o Vistoso 4.0... eu quero tá dentro da lei e...". Pfiu... gargantilha travada novamente. João foi atirado numa cela com outros 57 violadores da lei global de patentes de software. No cantinho, ao lado do vaso sanitário, dois piratas jurássicos: usuários do eJumento que ainda baixavam músicas e filmes pela internet. No caso deles será pena de morte, todo mundo sabe. Mas e o João? Qual seria seu julgamento?

Três anos, dez meses e vinte e sete dias depois, João foi levado para a sala de tele-julgamento. Passara esse tempo todo numa prisão de segurança máxima, numa solitária. Sem suas doses regulares de Purple Cow, chegava a dormir por 46 dias sem parar. Olhos marcados por sono e choro, encara o tribunal naquela bela telona de 103 polegadas. Seu advogado, nomeado pelo juiz, tá lá também, ao lado do júri. Fazendo tchauzinho. João estremece e o juiz começa a falar:

"Olha João, tenho outros mil e cinquenta e nove casos para julgar ainda hoje de manhã. Então vou direto ao ponto, ok? Seguinte: não sou preconceituoso e vivo comovido pela lástima situação de vocês miseráveis. Mas Linux sem cupom é o fim da picada, né? O desrespeito pela lei global de patentes de software não tem desculpa não: pena de morte!"

João não pôde se manifestar - a gargantilha travava tudo. Menos o **, que deu aquela apertada. Seu advogado só deu outro tchauzinho, com cara de piedade. João foi imediatamente levado para a arena de execuções.

Maracanã lotado. O cartaz prometia mais de mil execuções naquela tarde, a maioria inspirada nas inspiradas obras do mestre Tarantino [4]. João era o último da fila. E assistia, quase conformado, aquele desfile de atrocidades que passava ao seu lado: pedaços de corpos, espadas ninja cheias de sangue e orelhas, muitas orelhas. Seu personal-carrasco tinha a instrução de ouvir um último pedido e liberou a gargantilha. Mal João começou a chorar e o carrasco disse:

"Olha João, num sô preconceituoso e, como tu, vivo na merda. Mas nem por isso eu vou usar Linux sem cupom, né mané? Tu tá fudido mermo". Encerrou a frase arrastando nosso combalido herói para o meio do campo. No caminho o carrasco tratou de explicar: "Seguinte, esgotamos todo o estoque de Tarantino. Fizemos uma enquete pela Internet e a maioria votou na opção ROMA. Acho que é porque tem que digitar menos. Ou então é sadismo mermo... sei lá... mas eu curto a ROMA porque não sobra muita coisa para limpar no campo..."

João: "ROMA?...". Carrasco: "Pois é... acho que é sardosismo do pessoal. Roma antiga, saca? Aquele lance de leão?"

João é levado para o meio do campo. O carrasco remove a gargantilha (ela deve ser reutilizada) e enterra João numa cova. Só o pescoço e a cabeça ficam para fora. João não sabe se grita ou chora, enquanto vê a multidão da arquibancada gritar: "lê leu... lê leu... usou linux sem cupom e se (pim)". Como o evento está sendo transmitido ao vivo, o sensor de palavrão é ativado no próprio estádio. Toda hora: "pim". Mas a multidão não tava nem aí. E urra de alegria quando vê, saindo do vestiário, um imenso leão.

O leão tem pressa porque este post tá ficando grande demais. E corre em direção da cabecinha do João, com a bocarra aberta. Ele saliva e não pisca. João vê toda a sua Life 3.0 passar em questão de segundos. Se lembra da Anya e deixa cair aquela que deve ser sua última lágrima.

Acontece que o gramado do Maraca já estava em estado deplorável por causa das outras 999 execuções e do show religioso que tinha acontecido na noite anterior. E quando o Leão tentou brecar, deu uma derrapada de um metro. Sua boca passou raspando pela cabecinha do João. Sua genitália ficou colada na boca do João. Nosso herói não pensou duas vezes: tascou-lhe uma mordida não imaginada nem mesmo pelo Tarantino. O leão uivou de dor. E a galera das arquibancadas e das numeradas não se segurou:

"Pô pirata filho da (piimm)... vê se joga limpo!!!"


.:.


  1. Pensou que era sacanagem, né?
  2. Homenagem ao Seth Godin.
  3. Homenagem ao Miles Davis.
  4. Detesto Tarantino.

Não, ela não tá ameaçando o Mundo Livre. A encrenca com a Apple é mais embaixo. Literalmente. Ela encrencou com o iGasm, o criativo produtinho que aparece aí do lado. Sacou não? Vamos lá (loirinha): você pluga o iGasm num iPod e a outra ponta na... É, pois é. Lá mesmo. O brinquedinho vibra de acordo com a música. Não é um barato? Vai deixar muito nego "bão de cama" na lanterna, ou na mão...

Fãs do Roberto "Censor" Carlos vão morrer de tédio. Fãs do Caetano vão pensar que o aparelhinho tá estragado. Fãs do Carlinhos Brown vão entender porque ele virou genro do Chico. Por falar nele.. deixa pra lá.

O Roberto X fez uma piadinha mais engraçada: "Metallica não é indicado. Você corre o risco de ficar doidamente eufórica - e de gritar 'Lars Ulrich é deus!!" hehehe..

Pô Apple, "são dez horas e o samba tá quente / deixa a menina contente / deixa a menina sambar em paz".

É o que diz Mark Shuttleworth, criador do Ubuntu, em seu blog. E explica: "A cada novo lançamento de software, a Microsoft se arrisca a pisar nessas minas terrestres, que são as patentes. Cada uma delas representa um potencial processo". Bill já tinha falado sobre isso há muito tempo. Por isso a coisa toda parece uma guerra fria mesmo. Independente do lado que lance o primeiro míssil (segundo Mark, é mais provável que eles saiam de pequenas empresas 'inventivas'), todos perderão.

É por isso que Mark, algumas boas cabeças da Europa, e também os extremistas do Universo do Software Livre se unem para brigar pela única solução possível: o fim das patentes de software. Queria muito que o tio Bill entrasse nesta briga também, antes de se aposentar. Ele sabe que, no final das contas, só tem a perder com essa história de patentes.

Quando o assunto é "patente", pinta tanta idiotice que, além de ficar dizendo "e o quico?", dá uma vontade danada de rir. Há pouco tempo mostrei aqui uma patente requerida pelo McDonalds. Queriam proteger um ativo intelectual valiosíssimo: a forma como eles colocam o hamburguer na chapa!

Mas agora a coisa esquentou: pra valer! Alguém nos EUA patenteou a Yoga!?! Os indianos dominam a "ciência" há mais de 5 mil anos. Agora correm o risco de ter de pagar "royalties" toda hora que quiserem dar uma "meditadinha"... hehe...

Tô ficando preocupado. Será que patentearam nosso pão de queijo e bolo de fubá? E o uso do botão direito do mouse? E o quico?

Quando você 'patenteia' ela? Ou seria a 'patente das piadas' uma piada em si?

É de morrer de rir. Mas se a gente parar pra pensar um pouquinho, o riso ficará amarelo. Até que ponto chegará essa obsessão pela proteção de "propriedade intelectual"?

.:.

Enquanto dá tempo* - e aproveitando que hoje é sexta:

Dois leões, cansados da mesmice do Zôo-Sampa, e de toda a violência que imperava naquelas redondezas, resolveram fugir. "Vamos voltar para a África, nosso verdadeiro lar." O outro concordou na hora: "Que idéia maravilhosa - imagina aquele tanto de zebra dando sopa!" Dois dias de planejamento ágil e zip! Zarparam.

O plano: descer a Anchieta ou a Imigrantes (a que estivesse menos engarrafada), e cair direto no porto de Santos; entrar sorrateiramente em qualquer navio com uma bandeira MUITO colorida e que tivesse um nome cheio de vogais. Pronto: "Mama África ou nada!" Lembrete do leão 1 para o leão 2: "abaixa a calda!"

Lá se foram. E, como em todo plano, um imprevisto: é sexta, véspera de carnaval. A saída de Sampa tá do jeito que o diabo e os promotores de arrastões gostam. O leão 1 perde o leão 2 de vista. Mas segue o plano, confiando na fome e no senso de direção do segundo.

[Seis meses depois... na velha jaula do Zôo-Sampa]

"Entra aí e fica quietinho!" Era um daqueles soldados barrigudos, despejando o leão 1 em sua velha casa. Ainda atordoado pela quantidade de suco de maracujá (in natura) que teve que engolir, voltando da África, o leão 1 vasculha triste sua triste cela. E qual não foi sua surpresa quando viu ali, gordo como ele, o velho amigo leão 2: "Caramba mano! Você sumiu!! Que que houve?".

Leão 2, com um sorriso de satisfação, respondeu: "Pôxa, você viu aquele engarrafamento todo? Então.. cansei de andar. Nada passa naquele pedágio desgraçado. Parei pra descansar um pouco dentro dum buzão que tava vazio. Achei até que iam tocar fogo nele ou algo do tipo. Na calmaria, dormi."

"Ahn, mas, e aí? Te trouxeram pra cá?"

"Nada... Quando acordei o buzão tava numa daquelas avenidas largas daqui, do lado dum rio fedorento. Chamam ela de 'marginal' não sei porque. A avenida não tem nada a ver com isso. O motorista aproveitava a solidão e descia o bambu. Na primeira reduzida eu pulei fora. Não dá pra confiar em motorista de buzão animado com a sexta de carnaval, né?"

"E tu ficou ali?"

"Então mano... não quis dar bandeira. Tinha umas torres bem bonitas bem do meu lado, meio abandonadaças. Com umas letrinhas brilhantes no topo. Uma maravilha. Entrei quietinho e fiquei lá..."

"Até a 4ª feira de cinzas?"

"Que nada. Até ontem!"

"Caramba! Até ontem?!? Não te acharam lá?"

"Pra começar, a garagem daquilo é um mundo. Bem depressivo, mas um mundo. Fácil se perder naquilo. Como era escurinho e coisa e tal, me escondi ali mesmo. E, pra variar, peguei no sono. Péssimo costume que adquirimos em jaulas. Perdi a noção dos dias e noites. Começou a bater uma baita fome quando o lugar começou a ficar cheio de gente. Cara, que cardápio!"

"Conta, conta..."

"Tinha uns tipos que, quando em duplas, falavam um monte de coisa num inglês esquisitinho. Cheios de pose e gesticulações. Cheios de siglas e, quase sempre, carregando uma latinha de Coca Light. Gostava deles porque já vinha com o refresco, hehe. Tinha os solitários também, que andavam com umas cordinhas saindo do ouvido. Quando não ensaiavam passinhos de dança, cantarolavam alguma musiquinha. Só evitei os mais gordinhos... cê sabe né? Não dá pra comer tanta gordura com essa idade..."

"Mas você comeu todos?"

"Pois é... só foram descobrir que tinha algo errado na garagem quando esgotei os tipos 'chiques' e comecei a comer as tiazinhas que servem café lá em cima..."

.:.

* Se eu tiver que pagar royalties pela piadinha acima, é para o Marinelli. A única adaptação que fiz foi com a localização. Na versão dele, o leão 2 foi parar na 23 de Maio...