Sobre

Graffiti \Graf*fi"ti\, s.m.
desenhos ou palavras feitos
em locais públicos. 
Aqui eles têm a intenção de 
provocar papos sobre TI e afins.

O Graffiti mudou!

Visite a nova versão em pfvasconcellos.net
Mostrando postagens com marcador inovação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inovação. Mostrar todas as postagens

Talento X Comprometimento

11 fevereiro 2010

Depois que até o Mestre Jacobson apelou para metáforas ludopédicas, é claro que não vou furar a bola alçada pela dupla que comanda a seleção canarinho, né? Ao tentar justificar a lista de convocados nesta semana, o auxiliar-técnico Jorginho disse mais ou menos o seguinte:

A técnica apenas não basta. É preciso mostrar comprometimento.

Com certeza é isso que justifica a presença de Felipe Mello, Josué, Júlio Batista, Elano, Gilberto e outros caras que mal conseguem se firmar em seus clubes mas merecem espaço na nossa seleção. E é a mesma desculpa para a ausência de Ronaldinho, Neymar, Hernanes, Elias etc etc etc. Nosso campo é outro, verde em outro sentido. E o que quero propor é um papo sobre o conflito Talento X Comprometimento.

Numa época em que o mercado cobra Inovação e Criatividade, é possível que uma empresa se dê bem apostando no comprometimento em detrimento da técnica, do talento? Basta ver quantas empresas por aí, particularmente de TI, pastam para sobreviver. Seria por falta de comprometimento de seus colaboradores? Na minoria dos casos, posso garantir. Mais do que comprometimento, lhes falta talento. Carecem de pessoas criativas. Ou, principalmente, de não-processos e não-políticas que valorizem os criativos.

O que nossa comissão técnica e muitas das nossas empresas não explicitam é um medo e uma incompetência. Medo: Os caras mais talentosos são mais rebeldes e contestadores. Incompetência: Não sabem gerenciar gente talentosa. O que fazem, então? Não convocam ou não contratam gente que possa representar perigo.

Romário, crucial no Tetra de 94, fugia da concentração para suas gandaias. O que é estranho, no caso da seleção, é que tanto Dunga quanto Jorginho estavam lá. Anjinhos, claro. Mas teriam coragem de "queimar" o Baixinho? Hehe.. eles são bobos mas não são burros.

Agora, por favor, não me interpretem mal. Não estou propondo que as empresas virem o caos absoluto com trilha sonora do samba do nerd mucho-loco. O que estou dizendo é que, enquanto as empresas insistirem nessa coisa limpinha, chata e previsível de seus processos elas seguirão pastando para pagar as contas. Chega de invejar os números de uma Google da vida mas não copiar umazinha de suas boas ideias em gestão de talentos. Basta de mediocridade!

.:.

E a seleção? Já perdi qualquer esperança. Em 94 tínhamos 8 chatos e 3 talentos em campo: Romário, Bebeto e Tafarel. Bastaram para aquele título feio, chato, quadradinho e que só veio nos pênaltis. Hoje só temos um talento de verdade. No gol!?! É pouco. Muito pouco. Como já disse lá nas previsões para a próxima década, nosso Hexa virá em 2014, em casa. E com o Dunga exilado lá na Patagônia, secando os talentos num radinho de pilha.

O lance aí do lado é um dos mais reprisados na história do futebol. O Pelé perdeu o gol. A seleção de 1982 é lembrada e celebrada até hoje nos 4 quantos do mundo. Não ganhou nada. No final das contas, o que fica é o talento. E a história que ele ajudou a criar. O resto é o resto.

... em festa do queijo e da cerveja.

O tema, sério e rico que é, merecia um artigo melhor elaborado. Mas não tenho mais tempo nem paciência pra seguir represando impressões que me incomodam há tempos. Fatos soltos e não ordenados:

  • Depois de um tempão construindo a marca "Globo.com", aquela empresa simplesmente resolveu migrar boa parte de seu conteúdo para algo insípido e pouco explicativo chamado "G1". Não desorientou apenas os "favoritos", mas principalmente anunciantes e público, que não mereceram uma mínima explicação plausível;
  • Aliás, a surra que a Globo toma da Internet é caso que ocuparia um livro inteiro. Há 10 anos, quando o Galvão Bueno disparava uma "enquete" via web no meio de suas transmissões, tinha que pedir desculpas poucos minutos depois: "Caiu... tá fora do ar. Vocês sabem, internet é assim mesmo...". É? Demoraram 10 anos para ter coragem de colocar enquetes ao vivo de novo;
  • Na Folha do último domingo o excelente ombudsman, Carlos Eduardo Lins da Silva, tratou em seu tema principal a surra que aquele periódico toma da Internet. Tratou, citando ex-assinantes, do imenso desconforto que é ler a Folha na web. E teve que se contentar com a promessa de um projeto "para implantar uma versão com reprodução fiel das páginas do jornal, que seja prática, de fácil navegação e principalmente leve, ou seja, que possa ser consultada a partir de qualquer navegador ou tipo e velocidade de conexão". Só isso tudo! Quem pediu "reprodução fiel das páginas do jornal"? Farão promoção conjunta de monitores de 32 polegadas?!? Outra coisinha: UOL e leve parecem ser termos mutuamente excludentes.
  • Com frequência um tanto irritante apresentadores e comentaristas da ESPN Brasil falam sobre como sua interação com os "fãs de esporte" melhorou depois que adotaram blogs em detrimento dos emails. Blogs estão aí já tem uma década! Mas eles podem sim se achar inovadores, afinal sua maior concorrente, a SporTV (Globo!), ainda está na era dos emails.
  • Aliás, o máximo de interatividade que a Globo conseguiu foi o engraçado quadro "Bola Cheia / Bola Murcha". Em um universo de milhões de celulares e câmeras disponíveis por aí, até agora a Globo só conseguiu um brinquedinho perdido no meio do Fantástico. Mas pode dizer sim, que está na frente de suas concorrentes (abertas e fechadas).
  • A Band, por exemplo, só consegue pensar em mensagens SMS (devidamente comissionadas pelas telcos). É fato que não há ninguém lá dentro pensando nos telespectadores.
  • E minha amada Editora Abril, que viu a venda de algumas de suas vacas leiteiras despencar mais de 60%, segue impassível, conservadora como ela só. Um dia cada publicação tinha sua unidade web. Depois juntaram tudo. Redesenhos e redesenhos que não significaram nada, nadica de nada para seus assinantes e leitores. Dizem ter blogs, mas moderam e censuram comentários. Dizem-se inovadores, promovem eventos para discutir a Web, mas não sabem como proteger as peladonas da Playboy da pirataria. Aliás, acreditam que as protegem ao publicar as fotos digitais apenas quando a edição impressa completa 30 dias nas bancas. Maravilhoso, não? Deve ser caso único no mundo, em que os átomos chegam 30 dias antes dos bits. Protegem algo? Claro que não. Apenas tratam mal seus clientes, só isso.
Eu poderia seguir listando absurdos dos nossos grandes grupos de mídia. Quero crer que os exemplos acima sustentam meu chute: há um universo imenso de oportunidades aí fora. Mesmo considerando que a Google abocanhará boa parte dele, ainda sobrará muita coisa. Tô falando só de Brasil. E tô falando que os nossos grandes grupos de mídia, pelo toque da carruagem, não terão a menor condição de aproveitar a chance.

Net, Oi e Telefonica estão, neste exato momento, olhando para a mesma imensa janela. Não possuem histórico que me faça cravar fichas nelas. Mas, cá entre nós, é bem melhor do que ficar esperando por criativade de empresas como Globo, Abril, SBT, Band, UOL, Folha...

graffiare #451

24 março 2008

... No caso da indústria de software, a proteção [intelectual] é inimiga da diversidade e da inovação.

...

Os estudos sobre o assunto mostram que a proteção intelectual se provou desastrosa para a indústria de software por uma razão: esse não é propriamente um campo que vive de grandes descobertas, mas sim de uma série de pequenas inovações cujo mérito é justamente aprimorar o que já existe. Para dar vida a uma nova idéia, portanto, o inventor precisa necessariamente ter acesso livre ao que já existe. A imitação é um fator fundamental para a inovação, e as patentes se transformam em óbvios obstáculos. Depois da lei de proteção intelectual dos Estados Unidos, houve uma desaceleração no ritmo de evolução dos programas de computador. Liberar a pirataria, nesse caso específico, teria sido uma solução mais lucrativa para o país. Há ainda outras situações em que a lei de patentes no mundo tecnológico não chega a atrapalhar, mas em compensação não surte efeito algum - é apenas obsoleta e inútil.

...

Certas empresas na área de tecnologia já optam por não patentear seus inventos, porque eles estão se tornando ultrapassados da noite para o dia. Não compensa, portanto, enfrentar toda a burocracia por algo que logo se torna desprovido de valor. A discussão sobre patentes que faço aqui ajuda a reforçar a idéia de que a interferência do estado em algumas áreas parece vital, mas é, para o dizer o mínimo, desnecessária, quando não claramente prejudicial.

- Eric Maskin (Nobel de Economia em 2007, na Veja da Semana).

I'm Alive!

06 março 2008

Já o coitado do Graffiti, tsc tsc... Em seus quase 4 anos de idade, ele nunca ficou 3 semanas tão abandonado. Então é hora de tirar aquelas inevitáveis teias de aranha, né?

Antes, uma coisa gozada: apesar do abandono, a grande-pequena média de visitas diárias não mudou. Explicação: o Google adora mandar gente pra cá! As buscas mais estranhas geram visitinhas. Conteúdo estranho e eclético é assim mesmo... Anteontem recebi um email d'um cara me pedindo dicas sobre graffiti's - aqueles que são pintados em muros alheios!! Céus...

Mas, diz aí, o que aconteceu nas últimas 3 semanas? No meio da minha correria, que além dos eventos finito agora envolve também algumas consultorias, fiquei meio desligado.

Pela falta de barulho, sei que o casório MS++Yahoo ainda não rolou. Coitada da MS, além de toda ansiedade natural de um noivo (desastrado e não desejado), ainda tem que ficar brigando com aqueles europeus teimosos que insistem em belicar 5% de seu faturamento bruto. Pior: teve que aguentar o DoJ (Depto de Justiça) estadunidense revelando uma parte bem feia de suas entranhas: aquela gambiarra (reduzindo specs e reqs do Vista) para agradar a coitada da Intel. Para coroar inferno astral tão duradouro, Tio Bill não é mais o 2º homem mais rico do mundo. Dá dó.

Quase tanta quanto a que senti ontem, analisando uma centena de currículos. Um dos meus fregueses precisa d'um gerente bem especial: operações + help-desk (com quedinha por desenvolvimento - alguém que não plane na mayonaise quando o assunto é manutenção, relacionamento com desenvolvedores etc etc). O anúncio foi publicado em dois grandes "sites". O resultado é lamentável. Tem gente que atira para tudo quanto é canto. Tem gente que não aprende que um CV deve ter, no máximo, 3 páginas. Tem gente que não entende que quando o anúncio pede a pretensão salarial é pq tal informação é crucial no processo de seleção. Tem gente que não aprende...

E quer emprego? Quer salário legal? Quer novos desafios? Pôxa... então presta atenção, né?

Mas não são esses que dão dó. São aqueles que mostram no currículo como sentem a falta d'uma bússula, de uma visão de carreira. Gente com 15 anos de carreira errática, tortuosa, indefinida. E aqueles que não duram 3 meses num emprego. E aqueles que fazem curso de tudo, de C++ até CorelDraw.

Há tempos eu não fazia isso. Me fez lembrar da época de gerente: é o 2º pior trampo que existe. Só uma coisa é mais desagradável do que analisar currículos: é despedir por ter analisado errado.

Voltemos aos casórios. Afinal, rolou um com noiva tupiniquim: a Tectoy. O noivo estranho é a Qualcomm. Pois é, aquela. O interesse em questão atende pelo singelo pseudônimo "Jeanie". E, pela enigmática matéria que pintou na Folha do último sábado, parece ser coisa de "gênio" mesmo. Saca só: "A Folha apurou que o objetivo é lançar, no final de 2008, um brinquedo digital que conversará com as diversas tecnologias existentes atualmente". Wow!!

Torço para que não seja um hub(zinho) a la Windows Media Center. Se for, nasce morto. Não há espaço para "centralizadores", ainda mais em residências. O que precisamos é que todos os nossos badulaques modernosos conversem com todos os outros badulaques, e não só com aqueles "existentes atualmente". A tecnologia tá toda aí. É só uma questão de "vontade política". Mas... pôxa... que a Tectoy nos brinde com um produto realmente inovador.

Que salada de assuntos, hem? Sorry... espero recuperar o ritmo normal em breve. Inté!

Revendo 2007

20 dezembro 2007

Há uma semana planejo este post. Ia se chamar "2007 bytes", e travei numa brincadeirinha boba: escrever um post com 2007 caracteres. Desisti. Agora meu temor é outro: que o resumo leve a crer que 2007 foi um ano "pequeno". Não foi. Mas foi um tanto estranho. E com mais decepções do que a média dos últimos 3 anos.

Uma decepção que não é minha mas é de muita gente atende pelo nome "Vista". Antes de experimentar o "(good) look and (bad) feel" do novo sistema operacional da MS eu já antecipava a decepção: seria o último de uma linhagem de SO's que não faz mais sentido. Gordo, lento, burocrático. Estranho é que o ano também não foi bom para a Apple. Seu "Leopardo", além do atraso microsoftiano, também apresenta vários problemas microsoftianos. Conseqüência do crescimento, falta de foco ou outra coisa? Sabe-se lá.

O fato é que o Linux nunca fez tanto sentido. Mais no confronto com o Windows do que com o MacOS. Mas, como sempre, o universo Linux tropeça. Não houve uma esperada consolidação de distros. Desperdiça-se muito esforço e tempo. O Ubuntu, com empurrões cada vez mais entusiasmados da Dell, consolida-se como a distribuição ideal para desktops e leigos. Mas ele também foi uma decepção.

Explico: meu desktop é Gutsy (7.10), a última versão. É Kubuntu. A evolução na performance e algumas coisinhas como conectividade e compatibilidade melhoraram bastante. Mas, se comparado com a versão do ano anterior (6.10), a evolução não é tão grande. Não há nada de realmente novo. Para piorar: meu note se recusou a rodar Gutsy. Problemas com a conexão wireless, Compiz e outros me fizeram voltar para o 7.04. Aproveitei o retorno e resolvi experimentar o Ubuntu. Tá uma maravilha, com cubos e altíssima performance numa máquina que tem só 512mb de RAM. Mas, voltando ao ponto: a consolidação de distribuições (umas 3 principais seria o número ideal) daria outro ritmo para o desenvolvimento do Linux. Minha lista? Ubuntu (desktop), Red Hat (servidor) e Mandriva (ambos). O resto não faria falta (né Novell?).

Outra grande decepção é o XO, o laptop que custaria US$100 da OLPC (One Laptop per Child). Não o produto, mas sua aceitação. Ontem rolou um leilão do governo federal e a Positivo largou na frente: com uma derivação do Classmate (Intel) que deve custar a bagatela de R$950. O orçamento para a aquisição de 150k maquininhas é a metade disso... Tem coisa muito errada no processo. Quem paga? A criançada e Pindorama.

Aliás, Pindorama é mesmo um caso sério. Nunca se vendeu tanto micro e notebook abaixo da linha do Equador. Movimento tão grandioso deveria gerar milhares de negócios periféricos. Escolas, oficinas e micro-empresas dos mais diversos tipos. Alguém viu? E o que esse povo todo está fazendo com tanto poder computacional? Orkutando e fofocando?

Sobre o movimento, outro causo que só pode acontecer em terras tupiniquins: Um grande varejista fugia do tal e-commerce como o demo corre da cruz. Aí, depois de vender toneladas de micros, reparou que podia estar transferindo clientes para sua concorrência mais antenada. Agora corre contra o tempo para ter uma "lojinha virtual". Sorte daquela turma de TI (ralando em época de festas) que o grande varejista pode mudar de mãos em breve. Deve ir para alguém que sabe e gosta de vender pela web.

Por falar em turma de TI ralando em tempo de festas... tem gente adorando o fim da CPMF. Equipes inteiras dedicadas a mudar em 15 dias aqueles belos e mastodônticos sistemas bancários. Run, Forrest, run! Faltam 10 dias e 10 horas... hehe.

Breve listinha com outras decepções:

  • Second Life: fez que veio, não veio e acabou fondo;
  • TV Digital: prova de que esse papo de "corta escopo e mantém o prazo" é um perigo. Pô, cadê 80% do escopo original?
  • Cisco / Mude: pô, cadê 80% do imposto original?
Pindorama encerra mais um ano insistindo numa estratégia "feijão com arroz" quando o assunto é exportação de produtos e serviços de TI. Representada por aquelas empresas que chamei de "Padocas de Periferia". O déficit na balança comercial passa de US$ 1 bi. Com a receita comprando licenças de MS Office (!) e outras bobeiras, até o final do governo Lula estaremos enviando toneladas de soja e óleo e batatas para pagar caixinhas impagáveis. É o fim?

Talvez não. No post sobre "2008" eu volto ao tema. Mas o fato é que a gente, num esquema bem Martinho ("devagar, devagarinho"), tá aprendendo a criar boutiques. O Boo-box é um belo exemplo. A Castle Stronghold também. O P3D apareceu até na última Exame. Temos boas idéias. Grana boa também. Falta o último empurrão. Aposto nele começando em 2008.

Se inspirando nos melhores exemplos de 2007:

A Google segue seu ritmo. Ações a US$670 (3.4 salários mínimos tupiquins). Fidelidade ao seu "business": propaganda. E passos certeiros: Vídeo, celular... Onde a Google vai parar? Existe alguém para parar a Google? A questão mais importante (para nós tupiniquins) deveria ser outra: o que podemos aprender com o maior fenônemo do século?

Do outro melhor exemplo (inspirador) de 2007 vou colocar só um ícone (a IMAGEM DO ANO):

A Sobrevivência das Padocas

13 dezembro 2007

Necessário desvio da série "A Boutique e a Padoca". No mesmo dia em que publiquei a 2ª parte, aconteceu um encontro de alguns colegas do grupo UML-BR. Foi em Sampa, não pude participar. Mas os educados colegas publicaram uma listinha de conclusões. Uma delas bateu com o tema aqui: "Fábricas (de software) estão com os dias contados". Gelei. Não é o que estou propondo - padocas sempre terão sua utilidade. Mas, relendo as duas partes da série, percebi que tal conclusão seria possível.

Por isso este
post é devido. Esta série quer mostrar o quão diferentes são as Boutiques e as Padocas. Mas, de forma alguma tem a intenção de jogar uma pá de cal no modelo das podocas. Prefiro sugerir revisões e retoques.


Padoca não é Fábrica de Verdade

Adotamos o (infeliz) nome. Implementamos a triste e centenária idéia da "produção em série" baseada em muitas mãos (de baixo custo). E ignoramos a única característica daquela idéia que faria o termo "fábrica" fazer um pouco de sentido: o reuso sistemático. Fábricas de verdade reutilizam 80% de seus componentes, mesmo em produtos "novos". Nossas fábricas de software, em sua grande maioria, não reutilizam nada.

É um tema que mereceu uma série (inacabada) no finito. Resumo: reuso é um velho tabu em nossa área. Uma inequívoca prova de nossa infantilidade. Uma confirmação, como diz Paul Strassmann, do tanto de esforço e inteligência que desperdiçamos. Strassmann, no longínquo 1997, já sugeria [1]:
  • Adotem ferramentas que forcem a construção de software a partir de um repositório de peças padrão reutilizáveis;
  • Façam da acumulação e preservação dos ativos de software um de seus principais objetivos;
  • Ofereçam incentivos para que o staff de sistemas inclua a acumulação de ativos de software como um de seus objetivos-chave; e
  • Aumentem a longevidade dos ativos de informação ao invés de aceitar a suposição de que eles não valerão nada após o breakeven. (Nota: ao contrário do hardware, que se deprecia rapidamente, ativos de software aumentam de valor com o uso e com o tempo).
Todo leigo cai de costas: "quer dizer então que as fábricas de software tratam mal e não administram ativos de software?" Triste constatação. Sim, é verdade. Também causa espanto o fato do CMMI ignorar a questão por completo. Sim, mesmo uma empresa "nível 5" não aprende nada sobre reusabilidade com o CMMI.

Mas, esqueçamos por um momento as questões técnicas e os "certificados". Só a questão econômica já deveria justificar uma busca obsessiva pelo reuso de ativos de software. Brincando de matemática (conta de padoca, ok?): uma fábrica que conseguisse executar um projeto reutilizando peças para cobrir, digamos, 30% do escopo, teria plenas condições de brigar contra indianos e chineses. Vendendo mais barato! Ah, mas eles não custam US$ 1/hora? Balela. O valor médio cobrado por lá é de US$ 15/hora. Na China é US$ 20! A Irlanda, outro grande fornecedor de serviços de TI, cobra US$32/hora em média [2]. Ou seja, nosso preço (mesmo com o mal compreendido / mal explicado"custo Brasil"), não está longe da média mundial. A questão é outra: não vale a pena brigar por preço. Não no modelo atual (baseado em mão de obra barata). A briga deveria ser mais inteligente. Criativa.

Há uma explicação para o descaso com o reuso: seu custo. O reuso sistemático requer um caro investimento. Não tanto em ferramentas (hoje em dia elas são grátis e abertas), mas em processo e educação. Nossa miopia, que Goldratt chama de mirar exclusivamente "o mundo dos custos" [3], nos impede de dar a devida atenção para o retorno do reuso: ganho de produtividade de 58% em 4 anos! Redução de custos de até 79% (em 6 anos) [4]!! Nossa miopia é sintoma d'outro mal: o imediatismo. Quem pensa em 6 ou 4 anos? Taí o "x" da questão.

De qualquer maneira, a implantação do reuso sistemático daria outra cara para nossas padocas. Um sinal de maturidade que está muito além daquela medida pelo CMMI (que também é o padrão das padocas indianas).


Padoca não tem Identidade

Vimos algumas tentativas de criar uma identidade para o "software tupiniquim". Para nos diferenciar. Surgiram coisas como "nearshore" e outras que não merecem espaço e tempo. Deveríamos só ter copiado nossos exportadores de café. Um "selo" e uma entidade independente certificadora. Uma entidade totalmente independente do governo, por favor!

Imagine uma "fábrica de testes" que certificaria todo software exportado pelo Brasil. É isso. Só isso? Não é "só" e leva tempo. Mas, entendendo que o reuso por si só cria uma diferença notável em todas as nossas propostas, é questão de tempo para que o selo "software tupiniquim" seja tão ou mais relevante que um "selo" CMMI. Considerando que desperdiçamos os últimos 10 anos com n varadas n'água, o que são 4 anos de amadurecimento real?


Padoca Vende Tudo para Todos

Não raro, numa padoca de periferia (de facto), vemos até sabonetes e detergentes. Céus! Padocas especializadas ganham mais com seu produto principal - que é especial. Um produto que não cabe no bolso de todo mundo. Ou não cai no gosto de todo mundo. Um portfólio de produtos e / ou serviços muito aberto sempre gerará desconfianças. É simplesmente impossível ser bom em tudo.

A opção pela verticalização de ofertas reforça e é reforçada pela implantação do reuso sistemático. Se a fábrica só atende seguradoras, por exemplo, a possibilidade de reutilizar ativos sobe de 30% (ativos horizontais, genéricos, de infra) para mais de 60% (ativos que representam aspectos do negócio, especialistas). O enjoativo termo "foco" é mal utilizado em 90% das vezes.


Uma Padoca nunca tem Culpa

A culpa é sempre dos outros. Do cliente, da vigilância sanitária, do gerente (que, claro, é sumariamente demitido) etc etc. Mas, a pior das desculpas surge quando se pergunta porque a balança comercial do setor é deficitária em mais de US$ 1 bilhão por ano desde 1999. Saca só as conclusões deste estudo. Segundo ele, "os entraves para o crescimento do setor são":
  • Tributação;
  • Desinteresse em promover programas nacionais;
  • Inexistência de instituições que viabilizem, em larga escala, o desenvolvimento de software no mercado brasileiro; e
  • Dificuldade de financiamento para o setor.
    Obs.: neste último ponto, o artigo destaca que a dificuldade é acentuada "pela inexistência de patrimônio que sirva de garantia aos agentes financeiros. O fator se agrava com a rápida depreciação dos ativos na área, devido ao contínuo avanço tecnológico."
    Num país que tem crédito até para quem tem o nome no SPC e no SERASA, êita desculpinha difícil de engolir.

Reparem bem. Toda a culpa parece ser do governo. É a mesma história desde que os militares inventaram a reserva de mercado. As padocas nunca assumem responsabilidade nenhuma! Se as padocas insistirem nesse papo, faz sentido a (desiludida) conclusão do Meira [5]:

talvez devamos mesmo nos render à "vocação natural" do brasil, de ser o celeiro do planeta, e deixar este negócio de software para povos mais educados. e capazes. e mais conscientes.
Eu sou teimoso. E um otimista incurável. Ainda acho que é muito fácil "zerar", no mínimo, o saldo da balança comercial. Claro, não basta aumentar as exportações. Passou da hora de parar de mandar grana pra fora para bancar editores de textos e planilhas eletrônicas, né? Mas esse é outro papo.

O fato é que uma combinação inteligente de fábricas, boutiques e oficinas pode dar outro destino para nosso mercado de TI. Opa, eu disse oficinas?


Oficinas

Tive contato com centenas de pequenas e médias empresas (PME's) de software nos últimos anos. É relativamente comum ouvir a seguinte questão: "vale a pena investir em CMMI?". A impressão que dá é que o único modelo que as PME's conhecem é o modelo das "grandonas". Como falta um bocadinho de criatividade, não são poucos os que apelam para a simples cópia. Um cópia que faz tanto sentido quanto a rede de supermercados Maiolini, daqui de Varginha, imitar a rede francesa Carrefour. Não dá, né?

Há um espaço imenso para oficinas. Maior que aquele disponível para boutiques. Como é uma aposta de menor risco, talvez fosse o caminho natural para 80% de nossas PME's de TI. Não estou "chovendo no molhado". Eu sei que a maior parte delas já atua assim, como uma oficina. Mas sua relação com as fábricas é distante e informal. Por exemplo, só em torno da Microsiga existem dezenas de pequenas 'oficinas'. Na maior parte formada por ex-funcionários, eles oferecem serviços de instalação, customização e manutenção do ERP fornecido por aquela empresa. Hoje são tratados como concorrentes. Todos ganhariam mais se a relação, inevitável, fosse formalizada e aproximada. Para cada oficina formal da MS, existem 50 informais. Os exemplos são vários.


Combinação Inteligente

Num dos vários artigos "oficiais" que li sobre estratégia e inovação, vi que aquilo que chamo de "combinação inteligente" tem um nome pomposo: "Adensamento do Tecido Produtivo". Um conjunto isolado de fábricas, por mais "nível 5" que estampe em seus prospectos, não faz muita diferença no mercado externo (e menos ainda no interno). Um conjunto isolado de boutiques, por mais "jeitinho brasileiro" que exale, não faria muita diferença no mercado externo. Oficinas não existem sozinhas.

Há tempos esperamos que governo, Softex ou um santo de plantão faça a necessária amarração. Sorte que estamos todos sentados. Porque podemos esperar mais 100 anos que nada acontecerá. Se a gente não quiser seguir o caminho sugerido pelo Meira, tá na hora de se mexer. Primeiro passo: fazer os primeiros laços, de baixo para cima. Fábricas estreitando seu relacionamento com oficinas. Fábricas utilizando produtos das boutiques. Fábricas incentivando e lançando boutiques. Boutiques gerando serviços para fábricas através de seus produtos.


Ok. Soou simplista demais. Mas acho que é por aí. No próximo episódio falarei especificamente sobre os produtos e serviços das boutiques. Inté.


.:.

Notas:
  1. "The Squandred Computer" - Paul Strassmann, The Information Economics Press (1997). Texto obrigatório para empresas e governos. Tem 10 anos? Segue obrigatório: somos lentos demais.
  2. Números extraídos da revista Wired de fevereiro de 2004. Uma das capas de revistas mais belas e criativas de todos os tempos. Clique para ver uma versão ampliada.
  3. "A Meta" - Eliyahu Goldratt, Nobel (2002).
  4. "Rapid Development" - Steve McConnell, Microsoft Press (1996).
  5. Coincidência? Meira foi coordenador da maior pesquisa já realizada no hemisfério sul sobre Reuso de Ativos de Software. Conheça o RiSe. Baixe o CRUISE. Reuse!

Eu não sabia, mas a dupla "Arquiteto e Engenheiro" está junta até na festa. Na última terça, dia 11/dez, foi o Dia do Arquiteto e também o Dia do Engenheiro. Não creio que seja coincidência, mas também não corri atrás para descobrir. Não importa. Coincidência é que depois de amanhã (sab, 15/dez), um dos maiores arquitetos do mundo esteja celebrando 100 anos de idade. E eis que todo mundo abre generosos espaços para contar um pouquinho da vida e da obra de Oscar Niemeyer.

O caderno "Mais", da Folha do último domingo, trouxe curiosas leituras das "revoluções" de Niemeyer. Prós e contras!? Como toda unaminidade é beócia, adorei saber que existem "contras". Rica também está uma série de reportagens especiais do Jornal da Globo [1]. O capítulo de ontem foi especialmente chamativo: Engenheiros passavam noites em claro, atrás de soluções para os "problemas" criados por Niemeyer. A palavra "problema" com certeza não apareceu. Mas foi assim que li: o Arquiteto é um "criador de problemas".


Foto de Cristiane Souza (CC - Flickr).


E o que esse papo tem a ver com o Graffiti? Tudo. Não é de hoje que brigo muito para que TI "copie" mais outras áreas de conhecimento. Que aprenda com outras áreas. Há tempos, independente do trabalho, insisto (particularmente lá no finito) que tiremos das costas dos coordenadores de projetos uma parte do peso que eles carregam. Considerando sua formação básica, formalizada pelo PMBoK, sugiro que a disciplina "Gerenciamento do Escopo" vá para outra pessoa: para um Arquiteto.

Não estou sendo nada original não. Lá no distante 1975, Fred Brooks já dizia [2]:

Pensadores são raros. Executores são raros. Pensadores-executores são raríssimos.


Já defendia a tese quando conheci a proposta Scrum, um processo para gerenciamento de projetos. Tem algo muito parecido ali. Há um Product Owner - dono do produto, um Arquiteto (na minha leitura), e um ScrumMaster - o gerente do projeto. O primeiro é o pensador. O segundo, o executor. Jeff Sutherland, um dos "inventores" do Scrum, tem uma didática analogia: como numa equipe de Rally, o primeiro é o "Navegador" e o ScrumMaster é o "Piloto".

A mesma lógica ganha implementações diferentes, provocativas e promissoras. Não me lembro onde vi, mas a Promon tem desafiado alguns dogmas com coragem. Seus departamentos agora têm dois responsáveis. Um cuida do dia-a-dia, enquanto o outro "pensa a longo prazo". Sei, é um tanto diferente do que foi proposto no parágrafo anterior. Mas também serve para ilustrar a "tese".

.:.

Comecei a entender a validade dessa "lógica" antes de conhecer qualquer teoria. Foi na prática, na necessidade, lá no início da década. Trabalhando na linha de frente, quase sempre eu levava para a empresa o problema já acompanhado de uma "idéia de solução". Um mix de requisitos do freguês com idéias que eu não conseguia segurar. Foi doloroso o aprendizado. Eu "carregava" demais em minhas próprias idéias. Aprendi que é um método muito eficaz de diferenciação. Mas, na dose errada, cria problemas. Corrigindo: cria mais problemas do que deveria. Porque, como eu disse lá no início, o arquiteto é (ou deveria ser) um "criador de problemas".

Depois, em outras funções, pude aprofundar um pouco mais as minhas experiências. Repito em minhas palestras e oficinas uma estranha dica: "Tenha um Arquiteto pessimista e um Engenheiro otimista". Combinação fantástica [3].

O Arquiteto pessimista é mais pé no chão. Domina bem a tecnologia em questão e compartilha com o freguês as suas "dores". Mas não viaja. É pragmático e ágil no desenho das soluções possíveis. Quando avaliando todas as possibilidades, em conjunto com a equipe, sempre fala "não" antes do "sim". Aqueles "nãos" que eram pura teimosia costumam morrer em 24 horas. E se converter em criativos e valiosos "sims". Repare: o desenho da solução acontece em grupo. O arquiteto guia o processo. E seu voto é mais valioso que os demais. A razão é simples: ele, por princípio, é o único com a visão do todo.

O Engenheiro otimista não é menos pé no chão que o arquiteto. A diferença fundamental é que ele não é tão negativo. Por natureza, ele não coloca barreiras. Entende que sua principal função é exatamente o oposto disso: eliminar barreiras. Ele trabalha com o time e para o time. Ou seja, é muito distante daquela figura clássica de "gerente". A hierarquia é mero detalhe. Sua liderança brota da experiência e do relacionamento que mantém com todos os envolvidos. Um otimista costuma se relacionar melhor. E suas "brigas" são sempre mais sutis, elegantes. Afinal, todos entendem e compartilham os mesmos objetivos. O engenheiro nunca esquece seus objetivos.

.:.

Como nos ensina Domenico de Masi [4], "criatividade é a síntese de fantasia e concretude". Ou seja, não basta gerar brilhantes idéias. É preciso ter a capacidade de realizá-las. Um grande mito [5] que assombra inovação e criatividade é aquele do gênio, do inventor solitário. Brasília não existiria se não fossem os esforçados engenheiros que conseguiram transformar as fantasias de Niemeyer em concretude - em realidade.

Equipes de projetos são obrigatoriamente equipes criativas. Por definição elas estão criando. Quando compostas por pensadores e executores que se complementam, suas chances de sucesso aumentam bastante.

.:.

Notas:
  1. Já reparam que todo conteúdo de melhor qualidade a Globo esconde nas madrugadas? Pq cargas d'água a série não entrou no Jornal Nacional? Seria demais para os Hommers, Mr Bonner? Santa Infelicidade.
  2. "The Mythical Man-Month". Outro conteúdo dos bons que fica "escondido" da gente. Clássico com quase 33 anos de idade, nunca mereceu uma edição em PT-BR. Pode?
  3. Nelson Ponce e Luis Felipe Braga foram as cobaias mais frequentes dessa experiência. Trocando chapéus, conhecimentos e algumas palavras de baixo calão - entre eles ou comigo no meio. Não importa. Como eu disse, foi uma combinação fantástica.
  4. "Criatividade e Grupos Criativos". Publicado originalmente pela Sextante com quase 800 páginas. Depois, tentando popularizar o título, a editora dividiu-o em duas partes. Para Hommers, Beócios ou preguiçosos?
  5. "Os Mitos da Inovação", de Scott Berkun, está saindo em PT-BR?!? Por isso não pára de chover. Mas seu primeiro título (que está mudando de título?!?), ainda é inédito por aqui. Chamava-se "The Art of Project Management". Não importa. Leia o novo e pegue um tira-gosto do antigo aqui.

Continuação de "A Boutique e a Padoca", pequena série que discute a diferença entre 'boutiques de tecnologia' e as 'padocas de periferia' - o hiato entre um modelo proposto (baseado em inovação e produtos de alto valor agregado) e o modelo atual adotado por várias empresas tupiniquins para a exportação de produtos e serviços de TI.



Peopleware

O fato de a Colaboração (de cérebros que não 'pertencem' à empresa) ser um dos 4 pilares da nova forma de se posicionar no mercado não isenta as organizações da obrigação de montar grandes times. Como vimos no artigo anterior, a colaboração só tem início a partir de uma idéia ou produto ou serviço - devidamente abertos. Uma idéia ou produto ou serviço atraentes só podem ser concebidos e iniciados por um grande time.

Não grande em tamanho, mas em capacidade criativa. Trata-se do exato oposto do que percebemos hoje em nossas 'padocas'. Ao estruturarem suas ofertas mirando o equivocado alvo do baixo custo, essas empresas se fizeram 'fábricas'. Apostam em um rígido processo que deve nortear o funcionamento de uma 'linha de montagem' de software. Isso será discutido no próximo tópico. O ponto aqui é outro: a aposta em profissionais de baixo custo [1].

Uma 'boutique de tecnologia' é muito diferente. Exige profissionais altamente qualificados, experientes e cheios de tesão. Gente que raramente é de baixo custo. Gente que muito dificilmente aceita contratos de trabalho fajutos e/ou draconianos. Gente rara em Pindorama, e por isso tão "cara".

Ao decidir pela conversão para o modelo 'boutique', mesmo que parcial e de pequeno porte, a organização deve questionar todos os seus princípios e práticas. A começar pelo processo de seleção e contratação. Em setembro de 2006 escrevi uma pequena série sobre a "Contratação de Gente Criativa". Não vou me repetir aqui. Só reforçar a mensagem de que o processo é consideravelmente diferente. Alguns tabus como a exigência de curso superior, por exemplo, devem ser seriamente questionados [2].

.:.

'Boutiques' top de linha, como a Google, dão muita liberdade para seus profissionais. Eles podem, por exemplo, escolher seus projetos. E mudar de projeto sempre que desejarem. O que pode parecer um caos para um gerente 'tradicional' é, na realidade, um grande diferencial. Uma garantia de que o profissional sempre estará onde se sente melhor, onde se sente mais útil. Onde, consequentemente, ele será mais produtivo.

No caso da Google só há um instrumento que a empresa e seus gerentes podem utilizar para 'manipular' seus colaboradores: incentivos. Financeiros! Projetos estratégicos garantem para seus participantes uma bonificação diferenciada. Não promessas soltas, condicionadas ao sucesso da empreitada, mas grana de verdade no final do mês, no hollerith (ou seja, grana legal - nada de "por fora", ok?).

.:.

O Maior Custo da Inovação

Uma 'padoca' é concebida para não errar. Equipamentos, receitas e ingredientes são destacados para o combate aos erros. Pessoas são penalizadas pelos erros. Prevalece a busca obsessiva pela 'qualidade total'. Cria-se assim uma cultura que é antagônica àquela que deve caracterizar uma 'boutique'. Antes de um acerto, uma 'boutique' erra muito. E esse é o seu maior custo.

A mais importante ferramenta do físico é sua cesta de lixo.
- Albert Einstein

As duas ferramentas mais importantes de um arquiteto são a borracha na sala de desenhos e a marreta na construção.
- Frank Lloyd Wright


Em 'boutiques' a la Intel ou Apple, os acertos carregam em seus preços todo o custo dos erros. Google e outras 'boutiques' de última geração têm uma estratégia um pouco diferente: uma 'vaca leiteira' (busca e publicidade, no caso da Google) banca todos os fracassos. Neste caso, faz-se necessária uma característica muito cara para o mind-set de 'padoca': o desapego, a noção exata da linha que separa persistência de teimosia. A Google não teve 'dó' de cancelar seu projeto "Answers", por exemplo. Ou seja, há um limite de tolerância para erros. E todo projeto bem definido conhece o seu.

Numa 'boutique' os erros raramente são penalizados. O pessoal nunca convive com o medo do fracasso. Isso é particularmente importante em fases iniciais de planejamento ou definição de um produto ou serviço. Idéias que parecem estúpidas em um primeiro momento podem se provar grandes, revolucionárias ou inovadoras. Aliás, na maioria das vezes, são as idéias que enfrentam maior resistência aquelas com maiores chances de sucesso [3].

.:.

Processos

Uma 'padoca' vive da repetição infinita de processos pré-definidos. Uma 'boutique' não sobrevive se não apresentar uma nova coleção a cada estação.

A montagem de fábricas de software para o atendimento do mercado externo forçou uma corrida por coisas caras como as "certificações" CMMI [4] e afin$. Garantias que são oferecidas para os clientes mais ou menos assim: "Garanto executar meus projetos repetindo os acertos, limando os erros, e melhorando sempre". Não há nada de errado com a mensagem. O problema é que uma 'boutique de tecnologia' não depende de nada disso.

Uma 'boutique' é avaliada pela inovação ou criatividade [5] de seus produtos e serviços. Uma 'boutique' moderna:
  • É avaliada pela qualidade das conversas que ela mantém com seu mercado - lembre-se: suas transações comerciais só começam depois que a conversa é estabelecida e mantida (vide YouTube, Facebook, Boo-Box etc);

  • Consegue iniciar conversas porque antes estabeleceu relacionamentos. Vimos no artigo anterior que o compartilhamento de produtos e serviços abertos e relativamente livres é o melhor convite para a colaboração. E a colaboração de clientes e parceiros significa a criação de sólidos relacionamentos.
Se uma idéia não é inovadora, criativa ou sexy o suficiente, ela não atrairá muitos relacionamentos. E é neste ponto que aparece outra diferença fundamental entre as 'padocas' e as 'boutiques'.

A 'padoca' precisa de um processo forte, relativamente rígido. Claro que as fábricas jogaram suas fichas em padrões como CMMI, PMBoK e afins. Saca só: a palavra "Criatividade" não aparece em nenhum momento no documento CMMI for Development 1.2 (ago/2006); a palavra "Inovação" só aparece no nome de uma área do processo, "Organizational Innovation and Deployment" (OID - Nível 5). Ou seja, não tem nada a ver com a inovação que tratamos aqui; a palavra "Criatividade" aparece 3 vezes no PMBoK (Terceira Edição, 2004), mas também não tem nada a ver com a criatividade que buscamos aqui; "Inovação" não tem uma única ocorrência no PMBoK. É claro que Criatividade e Inovação não estavam no escopo dessas iniciativas.

Mas elas são tudo em uma 'boutique'. É por isso que as 'boutiques' precisam de um conjunto de ferramentas bastante diferente daquele adotado pelas 'padocas'. Pensou Ágil? Adjetivo ou substantivo? Brincadeirinha...

Como eu disse em outro lugar, existem muitas bullshitagenzinhas no mundo "Agile". Algumas das principais são o radicalismo e a impaciência de alguns proponentes. Nada muito sério. Mas, o fato é que estão lá (no mundo "Agile") algumas das práticas mais recomendadas para as 'boutiques'. Não há espaço para ser muito específico, então vamos para as principais:
  • Liberdade: a 'boutique' sabe escolher as ferramentas e práticas mais adequadas para determinado projeto. Scrum, OpenUP, FDD, salamemingüê? Não importa. Tanto que não há restrição alguma à adoção de algumas práticas estranhas ao mundo "agile". O importante é ter o melhor. E mais ágil (adjetivo).

  • Auto-gerenciamento: "Aquilo que é criativo deve criar a si mesmo", já dizia o poeta John Keats lá no século XIX. Uma equipe criativa gerencia a si mesma. O que não tem nada a ver com aquelas proposições de equipes de "iguais", de especialistas-generalistas ou vice-versa (sei lá, nunca entendo e a proposta sempre me soa um tanto "facista").

    Criatividade vem da diversidade. Uma equipe criativa é plural. É multi-disciplinar: recheada de Especialistas de verdade. Como o saudoso (e cada vez mais necessário) Peter Drucker falou [6], "Conhecimento, por definição, é especializado. Com efeito, as pessoas realmente detentoras de conhecimentos tendem ao excesso de especialização, qualquer que seja seu campo de atuação, exatamente porque sempre se deparam com muito mais a aprender".

    Drucker nos ajuda inclusive a entender outra grande diferença entre as 'padocas' e as 'boutiques': "A organização baseada em informações exige, em geral, muito mais especialistas do que as empresas tradicionais do tipo comando e controle".

    Alguém poderia dizer: "oras, mas as nossas 'fábricas' são organizações baseadas em informações". Sim, então tente explicar porque elas são "do tipo comando e controle". Incoerente, não? Mas este é outro assunto.

.:.

Agora falta falar um pouco sobre os produtos e serviços de uma 'boutique'. Algo do tipo: "onde colocar minhas fichas?". Com certeza, sairá outro looongo papo. Então fica para a próxima. Inté!

.:.

Notas:
  1. É relativamente comum que esse pessoal de "baixo custo" seja chamado de "macaquinho". Várias brincadeiras pintaram até então. Quero ver agora que descobriram (no Japão!) que os chimpanzés têm uma memória melhor que a nossa. Um passo para a metáfora perder sentido? hehe..
  2. Uma bela 'boutique' da Oceania (ThoughtWorks) acaba de 'roubar' um de nossos grandes caras, o Philip "Shoes" Calçado. Ele não tem diploma.
  3. Duvida (que são as idéias que mais sofrem resistência aquelas com maiores chances de sucesso)? Leia o excelente "How to be Creative" (paper gratuito - ChangeThis) de Hugh McLeod.
    Segue duvidando? Então mergulhe um pouco mais e leia "The Myths of Innovation" de Steve Berkun.
    Não se convenceu? Então pegue suas idéias que todo mundo aceita de boa e monte um boteco (de Boa). Ou uma padoca (de Zeca), sei lá. Só sei que não recebi jabá por essa.
  4. Coloquei "certificações" assim, entre aspas, pq entendo que CMMI não é só uma certificação. Reconheço sua utilidade para determinados tipos de organizações também. A única coisa que tentei enfatizar acima é que CMMI não tem nada a ver com uma 'boutique de tecnologia'. Assim como o PMBoK, ISO, CSM, PMP, sorvetecolorê e afins. Só isso.
  5. Apesar de sempre ver os termos "inovação" e "criatividade" serem utilizados de forma intercambiável, sigo com Domenico De Masi:
    Inovação significa pequenos incrementos em cima de uma idéia já conhecida - pequenos mas valiosos. Inovação é uma Evolução. Já um produto realmente criativo representa uma Revolução. A diferença é grande.
  6. Citação do Drucker foi surrupiada do artigo "O Advento da Nova Organização", publicado originalmente na Harvard Business Review em 1988.
  7. Ok, você não viu o número 7 no texto acima. Acontece que sou fanático por listas com 7 itens: "Os 7 hábitos dos enroladores de plantão"; "Os 7 hábitos dos jogadores-chinelinho"; "As 7 Maravilhas da Zona Verde de Bagdá" e por aí vai. Brincadeirinha...

    Acontece que o texto desta série foi MUITO inspirado em outros trabalhos que não foram citados explicitamente. Segue a listinha:

    • Confused of Calcutta, de JP Rangaswami. Todo o papo sobre Relacionamentos -> Conversas -> Transações.
    • Wikinomics, de Don Tapscott e Anthony Williams. De lá (e do livro) surrupiei "Abertura, Colaboração (peering), Compartilhamento e Ação Global".
    • CMM-BR e UML-BR, dois grupos de discussão. Nem vou citar nomes, mas vieram de lá várias idéias e contra-idéias (?) desta série.
      Contra-idéia?!? D'onde eu tirei isso? Sei lá, só sei que expressa exatamente o que eu queria dizer. Homenagem aos "do contra". Minha eterna fonte de inspiração.

A Boutique e a Padoca

04 dezembro 2007

Semana passada comentei aqui uma entrevista com Marco Bravo da IBM. Falando que Pindorama não tem condições de concorrer contra quem cobra US$ 1 por hora de programação, ele sugere outra estratégia: que nos transformemos em uma "boutique de tecnologia". Não sei se ele tem exata noção do impacto de sua sugestão. Afinal, a própria IBM investiu muito no modelo que chamei de "padoca de periferia".

Nada contra as "padocas". Muita coisa contra o "modelo". Apelei para o termo porque ele mostra com exatidão a distância que existe entre as duas estratégias.

Fotos de Carlos Emerson Jr e Annia316, respectivamente.

Wikinomia

O termo pode parecer uma 'bobeirinha', mas as tendências documentadas por Don Tapscott e Anthony Williams no livro "Wikinomics" (Nova Fronteira, R$ 50) não podem ser ignoradas por ninguém que queira criar ou manter um negócio no século XXI. Muito menos por quem pretende ser uma "boutique de tecnologia".

Quatro princípios, sempre em conjunto, norteiam as estratégias e táticas das empresas que se destacaram nos últimos tempos:
  • Abertura: processos e produtos são abertos. Código-fonte ou, no mínimo, API's (Interfaces Programáveis de Aplicações), são oferecidas sem praticamente nenhum tipo de entrave (técnico, comercial ou legal). Ao derrubar muros e grades que "protegem e escondem" seus jardins, as empresas enviam convites para a Colaboração.

    Numa "padoca de periferia" o raciocínio é diferente. Há obsessão por controle da "propriedade intelectual"; existem serevas punições contra ladrões e piratas. E, de certa maneira, a empresa é uma grande "caixa preta". Ninguém vê direito o que o padeiro está fazendo, nem como. O pão sai quentinho? Nem sempre na hora combinada. Nem sempre no peso acertado. Nem sempre na receita previamente aprovada. Quer dizer, quase nunca temos o nosso pão quentinho! (70% é o número chutado de projetos que falham).

  • Colaboração: o princípio é básico: sempre existirão mais mentes brilhantes fora do que dentro da empresa. Quando você os "convida" para trabalhar contigo, abrindo seus processos e produtos, pode ganhar um poder criativo inimaginável em qualquer outra forma de organização conhecida pelo homem. Qual a contra-partida? Depende. A Google acaba de liberar o Android, o sistema operacional baseado em Linux e Java* que deve equipar centenas de celulares já em 2008. As melhores colaborações repartirão um prêmio de US$ 10 milhões. Só há uma certeza: vai colaborar (voluntariamente) quem achar que também pode ganhar alguma coisa com seu produto ou processo. Aprendizado? Grana? Um produto melhor? Experiência? Uma nova oportunidade de negócio ou emprego? O limite é a criatividade. Lembre-se: Abertura. E Compartilhamento.

    Nossas "padocas de periferia" colaboram muito pouco, entre si e com a imensa comunidade de TI. Sem abertura não há possibilidade real de colaboração. A melhor provocação raramente é utilizada: "A melhor equipe nunca estará aqui, sempre estará lá fora". Será difícil para alguns empresários aceitarem esse fato, mas é a pura verdade. Conseqüência esperada: se você não ocupar os cérebros que estão lá fora com bons projetos abertos, sua concorrência o fará. Nossa lentidão gera efeitos piores: tem muita gente boa nossa trabalhando para "boutiques" de fora. Fora de Pindorama.

    * Não por acaso, o uso de padrões e sistemas abertos também caracteriza modernas boutiques.

  • Compartilhamento: Ao contrário de Don e Anthony, não vou destacar neste princípio as questões de propriedade intelectual (já abordadas no 1º princípio). Falemos então de compartilhamento de espaços e recursos, de técnicas e pessoas. Seth Godin abriu seu escritório para que idéias de campos diferentes também fluissem por lá. O Hub-SP deve reunir, num mesmo dia, gente de moda, design, TI, culinária, cinema e revistas.

    Nossas "padocas" são possessivas e ciumentas. Seus muros não travam só propriedade intelectual, mas qualquer tipo de propriedade. E o apego aos bens físicos é um tanto estranho em tempos de vida digital. Compartilhar poder computacional? Que eu saiba, nem por razões filantrópicas.

  • Agir Globalmente: lembre-se, este texto foi provocado pela necessidade (!) de Pindorama vender produtos e serviços de TI no exterior. Como Don e Anthony destacam em seu texto, não basta mais apenas "pensar globalmente". E ação global é muito mais do que abrir filial no exterior. Ainda mais se for apenas um "escritório comercial". Nossos processos precisam ser globais. Tratando de software especificamente, faz todo o sentido que "braços técnicos" existam ao redor do globo.

    A lógica das padocas, segundo uma edição da "B2B Magazine" (nº 40, mar/04) que se propôs a nos ensinar a exportar software, é "preço, preço, preço". É a lógica que está no núcleo, na raiz do erro apontado por Marco Bravo: de que conseguiríamos concorrer com Índia e China. No preço!?! Uma conseqüência é nosso baixo QI global - afinal, só abrimos "escritórios de vendas". Outros efeitos colaterais serão apontados no decorrer do artigo.
.:.

Wikinomia Prática

A wikinomia na prática, ou seja, a realização de negócios nesse novo mundo, é um tanto diferente do padrão que caracterizou a economia do século XX. Uma "boutique de tecnologia" presta atenção na seguinte seqüência:
  • Relacionamento: se posicionar no mercado é estabelecer uma série de relações. Você acelera a construção de uma rede de relacionamentos quando é transparente, franco, livre - ou seja, Aberto. Só depois de estabelecer um relacionamento você tem condições de...
  • Conversar: trocar idéias, dores e "listas de desejos" com aqueles que participam de sua rede. Se você colabora e compartilha, é factível supor que boa parte de suas conversas serão sobre seus produtos e processos. Se há conversa, é sinal que boa parte de sua rede mostrou interesse no que você quer falar. É o primeiro (e verdadeiro) passo para que você possa realizar...
  • Transações: afinal, agora há uma relação de confiança. E seus produtos, idéias e serviços fazem sentido para uma "comunidade". O legal é que, quanto mais ela colabora contigo, mais gosta do seu produto ou serviço. Dependendo do tamanho da sua rede de relacionamentos, você estará Agindo Globalmente.
Que a simplicidade do "algoritmo" acima não o deprecie. A nova lógica dos negócios é assim, simples assim. O que não significa, de forma alguma, que seja fácil a sua implementação.

.:.

Estranho, mas quando pensei neste artigo, a intenção era falar só (!) de equipes (formação de), processos de desenvolvimento e afins. Depois reparei que o papo não faria muito sentido se implantando com nosso atual "mind set" comercial. So...


Link direto para a 2ª parte.

.:.

Curiosidades levemente acopladas:

João Sayad, secretário da Cultura de SP, esteve ontem (segunda, 03/dez) no Jornal da (TV) Cultura. Foi falar sobre uma tal "Indústria Criativa". E apresentou números estranhos e provocadores:

7,7% da população economicamente ativa de Sampa (metrópole) atua na "Indústria Criativa". A média tupiniquim é de 5,3%. Claro, nós de TI não estamos inseridos no meio. Merecemos?

Claro que não. Só quando virarmos, de fato, uma "Boutique de Tecnologia". Porque quando falamos de produtos com alto valor agregado, estamos nomeando e reservando a sua principal matéria-prima: Criatividade!

Meu Escritório em Sampa

03 dezembro 2007

Finalmente, depois de muito chororô, parece que finalmente "ganharei" um escritório em Sampa! Endereço: Bela Cintra (!), 409! Saca só:



Tô falando do "The HUB São Paulo", que se apresenta como "ESPAÇOS PARA INOVADORES SOCIAIS TRABALHANDO PARA UM MUNDO RADICALMENTE MELHOR". Radical? A gente ainda não viu nada.

Saca só a listinha de requisitos da Letícia.

Como será o primeirão e inédito por um tempo, meu único temor é o tamanho da fila de espera... Mas que o Hub seja bem sucedido. E gere 'n' cópias Pindorama afora.

graffiare #447

28 novembro 2007

Quando estudamos criatividade e inovação, uma das primeiras lições é: nunca julgue as idéias de "bate-pronto", de imediato. Trata-se de uma das 4 regrinhas fundamentais que delimitam uma sessão de "toró de parpite" (também conhecida por Brainstorming). Mas a regra vale para todos os momentos.

Pois bem, em 10/out/05 pintou por aqui o graffiare #175, destacando o mais hilário vencedor do prêmio IgNobel daquele ano, o incrível CLOCKY:

O Clocky é um simpático despertador que tem uma característica inédita: ele sai correndo. Isso mesmo, quando desperta, nada de tecla "soneca". Além de disparar o barulhão, ele sai correndo pelo quarto e pela casa. Ou seja, deve ser super eficaz para arrancar roncadores da cama. Mas, lá em 05, mereceu um IgNobel e um graffiare.

Pois bem, qual não foi minha surpresa quando vi o bichinho na penúltima página do guia de Tecnologia (jabá-driven) publicado pela Veja no último final de semana. Gostou? US$ 50 é o preço do simpático (ou irritante) corredor.

Deu ontem no JN: "nunca na história deste país se investiu tanto em pesquisa & desenvolvimento!". Apesar do texto, foi o Lula quem falou não. Narração do Bonner. Destaque especial para empresas de informática: 6,5% do seu faturamento foi direcionado para inovação!

Kkk... faz-me rir. A maioria não consegue registrar 5% de margem líquida. Como investiriam 6,5% (DO FATURAMENTO!) em P&D?

Ok, fazendo força pra crer que é verdade: cadê os resultados dos investimentos? Cadê os produtos? Onde estão nossas inovações? Não me venham com motor flex, ok? Estou falando só de TI.

Sei não, mas anotem aí: em 2008 vai pintar uma lei autorizando empresas a descontar de seu IR parte do valor investido em P&D. Para não parecer muito estranho o surgimento de generosas verbas no momento da publicação da lei, antecipamos um pouquinho a gambiarra.

Parece que o breve contato com o Marco "Boo" Gomes coincidiu com uma importante mudança de fase do produto Boo-Box. Taí, pela 1ª vez no Graffiti a transcrição de um press-release:

SÃO PAULO, SP - BRASIL (Julho, 2007) – A empresa de marketing contextual boo-box anunciou hoje uma rodada de investimento de US$ 300 mil liderada pelaeu Monashees Capital, empresa de capital de risco focada em novos negócios. O investimento será utilizado para financiar o estabelecimento do negócio e a expansão da sua linha de produtos. A boo-box é a primeira empresa brasileira de web 2.0 com ambições globais a anunciar um investimento por parte de uma empresa de capital de risco. Desde o lançamento de sua versão beta em janeiro, a boo-box tem sido citada em diversos meios especializados por sua solução de marketing contextual inovadora, tendo sido analisada positivamente pelo renomado blog norte americano de tecnologia TechCrunch.

Me faz lembrar d'uma pequena história, há mais de 2 anos, quando eu perguntava por aqui: D'onde poderia surgir um Google Tupiniquim?

Ok, vamos guardar as devidas proporções. Mas um produto inovador surgiu lá no DF, da cabeça de 2 caras totalmente independentes. Que belo tapa-na-cara d'um tanto de empresona por aí, não?

Bug = Oportunidade

30 maio 2007

Nossa área é única na geração de oportunidades de negócios. Além de todas as lacunas e da infinita maleabilidade dos meios que utilizamos, há um provocador de inovações bastante curioso: os bugs e desenhos ruins ou incompletos. Mercados inteiros podem ser criados em torno de erros que, em outras áreas, costuma dar em 'recall'.

O Wii da Nintendo tem um controle 'revolucionário'. O jogador deve apontá-lo e girá-lo, ao contrário dos joysticks tradicionais que devem ficar paradinhos. Bem, toda versão 1.0 de algo 'revolucionário' costuma dar muito 'pau'. No caso do controle do Wii, o problema é hilário: ele sai voando das mãos dos gamers; vira e mexe ele acerta o aparelho de TV. Prejú dos grandes. Imagina aquele LCD 42" totalmente trincado...

Mas agora os problemas acabaram! Uma tabajara-xing-ling lançou o Wii-tv-ultra-protector:



Pior é que é verdade. Economia moderna é isso aí: design mal feito gera inovação e empregos!

Para "comemorar" os 10 anos da publicação de "The Cathedral and the Bazaar", artigo clássico de Eric S. Raymond sobre o universo e a lógica do Software Livre, Nicholas "IT Doesn't Matter" Carr escreveu uma longa peça na Strategy+Business (publicação da Booz Allen Hamilton). Ensaio-provocação que recebeu o título "A Ignorância das Massas". Polêmica é o combustível do (pic)Nick. Que é um tipo de Mainardi, só com que boas intenções. Boas provocações.

O artigo é longo mas merece uma lida. Vou destacar apenas um ponto no qual, por incrível que pareça, concordo (parcialmente) com o Nick: o mundo do Software Livre carece de inovações. Bate com o que "pedi" por aqui há pouco tempo (particularmente para o Ubuntu): vamos inovar, principalmente na forma como usamos o micro. Idéias não faltam!

Ah, lógico, o Nick não acredita no potencial do bazar para gerar inovações. E grita: "Keep the bazaar out of the cathedral". Ele sabe que, se falasse o contrário, teria menos audiência, hehe..

Criatividade Tupiniquim

16 janeiro 2007

Há quase 3 anos uso este espaço para criticar a falta de criatividade da TI tupiniquim. "Jeitinho brasileiro" é gambiarra - criatividade de tiro curto, imediatista. Mas cometo uma grave injustiça porque miro nossas empresas e esqueço que Criatividade e Inovação não exigem um CNPJ. Eis que a revista Mundo Java* deste mês vem mostrar o lado jóia da nossa desvalorizada moeda:


  • Eduardo Guerra (SwingBean)
  • Sérgio Oliveira Jr, Rubem Azenha e Fernando Boaglio (MentaWai)
  • Guilherme Silveira (VRaptor2)
  • Kemmell da Silva Scopim e Sandro Luiz Bihaico (JSenna)
Os 4 produtos são para desenvolvedores. Ou seja, é o tipo de coisa que fica distante do público "normal". Mas é a turma que merece um pouco mais de apoio e divulgação. É a turma que não fica esperando "incentivos fiscais" para fazer Pesquisa & Desenvolvimento. E não é por acaso que todos os projetos são 'open source'. Passou da hora de nossas empresas reduzirem um pouco o gap que existe entre elas e a turma que tá inovando de verdade. Acho que os dois lados só ganhariam com isso.

.:.

Acho que eles não terão problema com isso. Torço para que não. Mas a inspiração para o nome de uma ferramenta que propõe "alta produtividade" e que usa como slogan a frase "Fast Web Development" é óbvia: JSenna! Que barato!









.:.

* Outra injustiça! Também vivo detonando nossa 'prensa' especializada. Sem dar o devido mérito para as honrosas exceções. A Mundo Java, com certeza, é uma delas.

Contratando Gente Criativa

14 setembro 2006

Este post é um filho bastardo da série "Gerenciando o Trabalho Criativo", que estou publicando no Finito.
Queria muito tratar o assunto mas não quis mexer na estrutura original da série. Porisso ele caiu aqui no Graffiti. Trata-se de um 'cross-posting', hehehe.



"There is something that is much more scarce, something finer far, something rarer than ability. It is the ability to recognize ability."
- Elbert Hubbard

Na última parte publicada no Finito eu falei sobre a formação de Equipes Criativas. Dei atenção quase exclusiva para o aproveitamento das pessoas que já trabalham na organização. Motivo: entrosamento e comprometimento. É mais provável que uma equipe formada por pessoas que já se conhecem - que já desenvolveram projetos em conjunto - seja mais ágil no desenvolvimento de um trabalho criativo. Mas sei que em solo tupiniquim, com os altíssimos índices de turn-over que caracterizam nossas empresas de TI, é muito difícil falar em 'longevidade' de equipes. Independente disso, por bons ou maus motivos, devemos estar preparados para ir buscar no tal 'mercado' os 'recursos'* que um projeto demande. Na última década eu contratei dezenas de pessoas. Devo ter entrevistado mais de uma centena. Sempre foi a parte mais difícil do meu trabalho como gerente ou coordenador de projetos. Independente da eterna boa vontade das 'meninas' do RH.

Tudo começa com a identificação e a correta definição da necessidade. Realmente não há ninguém na organização que possa preencher aquela vaga? Verificamos os cronogramas de todos projetos em andamento? Trocamos idéias com os outros coordenadores? Sim, sim e sim. Não há outra alternativa que não seja buscar aquele alfinete no mercado-palheiro. Defina o alfinete: cabeça arredondada? Pequeno ou grande? Quando nosso projeto está bem definido a necessidade é bem clara. Caso contrário veremos aqueles maravilhos anúncios que pedem, por exemplo, "bons conhecimentos em Java, .Net, Visio, Rational, RUP, UML, PMI, Delphi, CMMI, BI, SQL Server, VB, SAP... noções de ITIL, SOA e Flash serão considerados um plus a mais!!" Arrgh... sic mil vezes.

Acho um pouco exagerado o Joel Spolski quando ele diz que os caras bons "nunca estão no mercado". Lá no 1º mundo pode até ser, mas aqui em Pindorama não. Pq? Tenho certeza de que a culpa é dos nossos draconianos 'vínculos empregatícios'. Mais da metade de todo mundo que eu entrevistei estava empregado!:

"Estou buscando novos desafios." [Trad: tô ganhando pouco]
"O projeto tá acabando." [Trad: e a empresa não sabe quando venderá outro]
"O projeto tá enrolado." [Trad: estão trocando desenvolvedores por advogados]

Ou seja: pelo menos por aqui não é assim tão difícil achar gente boa no mercado. Facilita muito se soubermos onde procurar. Um dos piores lugares são as empresas 'de alocação'. Daquele tipo que se banalizou com o advento da Internet. Elas atiram para todos os lados e não sabem nada de projetos e tecnologia. Os melhores lugares são nossos ensaios de Comunidades de Prática, particularmente os Grupos de Discussão e associações como a SouJava. Mesmo assim, nos melhores casos, temos 4 'joios' para cada 'grãozinho de trigo'. Isso acontece independente da quantidade de 'pré-requisitos' que você coloca no anúncio da vaga. Faz parte. E cuidado para não tratar mal aquele 'joio' que pode não servir para o projeto atual, mas que pode ser de grande utilidade em empreendimentos futuros. Estando do outro lado, como 'candidato', já vivi algo parecido. Uma empresa recusou meu currículo por uma série de questões que qq dia tomo coragem pra contar aqui. Foi seca e muito mal educada. Um mês depois queria contratar meus serviços de consultoria pagando 5x mais o que eu ganharia como funcionário. Quase tive peninha deles.

Voltando. Então você recebe um pacote de currículos. Não há coisa mais triste e arriscada do que fazer triagem de currículos. Apesar do tempo ser sempre curto, é recomendável que a gente só desvie para a sexta seção (aka Lixo) aqueles que forem comicamente ruins. Todo currículo é muito ruim. Digo, ruim para a avaliação de um profissional. Lembro sempre de uma amiga que avalia casos judiciais: "atrás daquela folhinha de papel tem uma pessoa". Não há nada mais covarde do que a eliminação de um candidato com base apenas na leitura de seu currículo. Uma covardia inevitável, infelizmente. Minha 'generosidade' na seleção de currículos nunca me causou grandes problemas. Me ajudou muito uma tática conhecida pelo horrendo pseudônimo "dinâmica de grupo".




Atualização em 06/12/07:

Índice para as outras 4 partes do artigo






* Recurso. Um 'recurso' pode ser qq coisa. Me lembro de uma piada do Gerardinho que se referiu ao freio d'uma bike como um "ricurso di minguá toada". No trabalho criativo as pessoas são a principal 'matéria prima' e os principais 'recursos'. Por isso o termo 'recurso' é tão ruim.
E inapropriado.