Sobre

Graffiti \Graf*fi"ti\, s.m.
desenhos ou palavras feitos
em locais públicos. 
Aqui eles têm a intenção de 
provocar papos sobre TI e afins.

O Graffiti mudou!

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Bye Bye Bill

27 junho 2008

27 de junho de 2008. Dia que entrará para a história como o dia em que Bill Gates limpou as gavetas e se mandou da MS. Independente do tanto que você gosta, desgosta ou ignora o cara, é um dia triste. Bill é um símbolo da nossa indústria, uma lenda viva. Já disse por aqui, não entendo sua decisão. Se fosse um playboyzão tipo Ellison, eu entenderia a aposentadoria. Mas o Bill vai fazer o quê? Filantropia? Bão... a vida é dele e não tenho nada a ver com isso. Segue então só um breve histórico.



Bill nunca criou um produto revolucionário. Todos os produtos gerados por sua empresa são releituras (para não dizer 'cópias'). Algumas com algum valor agregado. Mas Bill foi um visionário. A forma como viu o surgimento da microinformática e seu possível impacto na vida de todo mundo é o que melhor explica sua mega-fortuna. "Um Micro em todas as mesas": Esta é a visão que fez da MS o que ela é. Foi a capacidade de realização desta visão que fez de Bill uma lenda. O resto é bullshitagem.

Para o azar do Bill, foi a mesma visão que fez com que a MS, a partir de 1995, começasse a perder o rumo. "A Estrada do Futuro", título de seu 1º livro, foi mal interpretada desde o início - por causa de sua visão. Segundo parágrafo da página 125 de seu livro:

A Internet necessita de um sistema de cobrança.


Em outro trecho (pág. 130) ele diz que "a informação mais atraente continuará a ser produzida tendo em mente o lucro". Mais (pág. 221): "a estrada poderia registrar se você comprou o direito de ler determinado livro ou ver um filme". Em suma: Bill nunca viu que a Internet promovia um novo capitalismo - e novas fontes de receita. E amarrou sua empresa com nós muito fortes. Vide seu caçula, o Vista, e o excesso de "controles de propriedade e direitos de uso" que contaminam seu Kernel. As únicas pessoas que não aceitam este fato são aquelas que ainda acreditam no modelo que a empresa de Bill representa.

A MS morrerá? Não. Mas, ao menos que aconteça uma enorme (e improvável) reviravolta, ela seguirá sua vidinha como um Morta-Viva. Rica, meio barulhenta e rabugenta, mas totalmente irrelevante na "estrada do futuro".

O engraçado é que o Bill, de certa forma, profetizou a decadência no mesmo livro (pág. 339):

Meu objetivo é manter a Microsoft na liderança mediante constante renovação. É um pouco assustador, já que, à medida que a tecnologia dos computadores avançou, nunca o líder de uma fase permaneceu líder na fase seguinte. A Microsoft tem sido líder na fase dos microcomputadores. Portanto, a partir de uma perspectiva histórica, acho que a Microsoft não se qualifica para liderar a fase da estrada na Era da Informação.
Seria covardia minha cortar o parágrafo ali, certo? Claro que o Bill não encerraria assim um 'posfácio'. Veja então como o parágrafo se encerra:
Mas quero desafiar a tradição histórica. Em algum lugar à nossa frente está o limiar que separa a fase dos microcomputadores da fase da estrada. Quero estar entre os primeiros a atravessá-lo quando o momento chegar. Acho que a tendência de que as empresas bem-sucedidas deixem de inovar é só isso: uma tendência. Se você está preocupado demais com o seu negócio atual, é difícil mudar e se concentrar em inovar.
Bill acertou no diagnóstico profético. Errou feio no remédio (e com Ballmer). Não será esquecido pela história. Mas garanto que ele se vai com a certeza de que poderia ter feito muito mais. E melhor.

Rendiconti :: O Projeto

26 junho 2008

Vamos conversar agora sobre como o negócio Rendiconti será desenvolvido. Pode não ter ficado claro no post anterior, mas a iniciativa é composta por duas grandes partes: a fábrica-gráfica, de tijolo, cimento e tecnologia; e o site.

A primeira já recebeu, há cerca de 2 meses, a maior parte do investimento necessário. Uma grande impressora laser já está em operação; o processo de produção já foi delineado; a pequena grande equipe já foi treinada. Esta parte foi antecipada exatamente para que a adequação à nova tecnologia aconteça bem antes da demanda que será gerada pelo site. Com um calculado efeito colateral bastante positivo: a gráfica (que, como eu já disse, pertence aos manos Cacá e Guz) ganhou outra fonte de receitas. Agora ela presta um tipo de serviço (popularmente conhecido como "gráfica rápida") que é inviável quando se tem apenas impressoras 'off-set'.

Merece destaque o maior (e, de certa forma desejado) risco: se a demanda proveniente do site for muito grande teremos problema de escala - e o prometido prazo médio de 3 dias úteis para a entrega das obras pode ser comprometido. Como a aquisição de mais impressoras está, por enquanto, fora de cogitação, foram traçadas duas alternativas:

  1. Outras gráficas da cidade (Vga!) possuem tecnologia similar. Receberão a demanda excedente;
  2. Se a demanda for grande também para elas, de duas uma: ou é boa o suficiente para justificar mais investimentos (impressoras), ou forçará uma parceria com uma gráfica de maior porte (no interior de São Paulo).
Só quando esta parte mais crítica e de certa forma mais cara foi resolvida é que teve início a 2ª parte do projeto: o site.

Há uns 4 anos sou um satisfeito freguês da Locaweb. Não tinha nenhum motivo para buscar outro hospedeiro. Meu servidor contratado, claro, é Linux. E isso gerou o primeiro requisito não-funcional do projeto: a arquitetura tecnológica do site se baseará em PHP e MySQL. Esta opção já cria um necessário filtro de eventuais fornecedores. Vale dizer também que o PHP me deixou muito bem impressionado desde o dia em que converti o finito para o Wordpress. PHP 5, Ajax, MySQL, talvez algumas 'frescurinhas' em Flash - estes são os principais componentes da arquitetura tecnológica do site.

Também não tive nenhuma dificuldade para definir o arquiteto-desenvolvedor: Hailton Ferraz, de Lençóis Paulista e estudante da UNESP de Bauru. Ágil, enviou uma proposta objetiva e bastante clara. Profissional e rápido como poucas grandes e médias empresas sabem ser. Mas eu tinha outras motivações para 'cravar' este projeto no meio do interior e no meio acadêmico:
  • Como um Quixote bêbado espero dar uma contribuição, por menor que seja, para que o pessoal pare de "ir a São Paulo pra trabalhar". O fluxo ganhou um "U-Turn" (tks! Stone, que passou no Intercine de ontem). Estamos no século XXI. Temos Internet. Temos banda larga (capenga mas temos). Ninguém precisa estar em Sampa para desenvolver projetos. Que nossas viagens para lá sejam só para passeio e encontros (profissionais ou não). Ou, no pior cenário, para breves estadias. E só!

  • O projeto do site é um excelente experimento. Por isso o 2º requisito não-funcional é fundamental: o projeto será 100% "open source". Espero que ele seja estudado. Torço para que ele sirva como exemplo em diversas aulas. E vou utilizá-lo para trocar conhecimentos com a turma de Analistas e Desenvolvedores que convivem comigo no nosso grupo de discussão e no recém-nascido Fórum FAN.br. Imagine que exercício legal: estarei fazendo o papel do freguês! Vamos praticar: a modelagem do negócio e seus processos; o desenvolvimento e gerenciamento de requisitos; gerenciamento de projetos; um processo de desenvolvimento enxuto e ágil, iterativo e incremental; etc etc. Tudo de forma aberta: como eu já escrevi aqui, todos os artefatos gerados serão públicos - e liberados para uso.
Ô FUQ! (Frequently Unasked Questions):
  • Bah! Então o projeto vai demorar pra caramba, não?
    Não! Há um negócio aqui, não se esqueça. Por mais que pareça uma brincadeira, o negócio é sério. Aliás, parecer uma "brincadeira" - no sentido de ser divertido - é uma qualidade que todo projeto de software deveria ter. Desde que seja uma diversão séria!
    Então o projeto tem um prazo sim: que flutua* entre setembro e outubro de 2008.
    * Flutua tanto quanto o custo: a forma de aquisição (que ainda tratarei naquela esquecida série "Trabalhando em Casa") é formalmente conhecida como "Aquisição Progressiva". Há um chute inicial (como em 100% dos projetos), mas valores e prazos serão ajustados na medida em que o projeto evoluir.
    * Tento provar assim que aquele "mantra" que diz que só o escopo pode flutuar é pura "forçação de barra".

  • E qual é o escopo do projeto?
    Mostrei no post de ontem que ele tem duas partes principais: o cadastramento de obras e a venda delas. Pouca coisa além disso já foi debatida. Como ocorre em praticamente 100% dos projetos de software, é impossível ter uma visão de todo o escopo em seus momentos iniciais. Neste momento (que em alguns processos é conhecido como "Incepção") buscamos uma visão que chamo de "2km de extensão e 2cm de profundidade". É parte dos exercícios.

  • Tanto barulho para um projeto de um cara só?
    O Hailton é o contratado, arquiteto e principal responsável pela execução do projeto. Mas quem disse que é um projeto de um cara só? Claro que estou pessoalmente envolvido em sua execução, não apenas como o (chato) freguês. Mas já tivemos a colaboração de uma dezena de "voluntários". Talvez tenhamos contribuições de dezenas, centenas de pessoas. Quem pode dizer? O projeto é aberto e livre. Se for um bom imã, atrairá esforços até de onde menos esperamos. É esperar e ver no que dá.

  • E como se gerencia um projeto assim?
    Honestamente? Não sei. É meu primeiro projeto de verdade que nasce "open source" - livre. Ferramentas para a estruturação e gerenciamento do conhecimento (requisitos!) adquirido serão necessárias. Mas essa parte até que é facilmente resolvida com os repositórios conhecidos. O maior problema estará no processo de gerenciamento. Taí uma bela oportunidade de aprendizado.

  • Qual processo de desenvolvimento será utilizado?
    Enxuto e ágil, Iterativo e Incremental. Talvez a gente crie um nome para ele, mas isso não importa. Surrupiaremos as boas idéias (e práticas) de propostas como OpenUP, FDD e até XP. Mas não seguiremos nenhum processo de forma cega, como algumas pessoas (ainda) acreditam que seja possível. Neste momento só há um princípio (ou requisito) escrito em pedra: o processo deve facilitar o aprendizado, em todos os sentidos. Só!

  • Os modelos, tanto do negócio quanto do projeto, são um tanto românticos, não?
    Como dizia uma bela psicóloga que um dia me deu um tratamento (informal), "não há altruísmo". É claro que eu espero ganhar muito com o projeto, em todos os sentidos. Há a perspectiva de um belo retorno financeiro. Há a publicidade "orgânica" - tanto do negócio propriamente dito quanto do meu livro que, claro, representa a nova ponta-de-lança do meu "lucro" (daquele papo "Troco - Lucro - Truco"). E, obviamente, espero aprender muito - particularmente com o projeto. Ou seja, não sou assim tão "bonzinho e generoso".

  • E se der tudo errado?
    Tudo é muita coisa. No pior cenário todos os envolvidos terão aprendido alguma coisa. O projeto é relativamente simples e "barato" (não estou apostando minha vida nele - meu negócio principal (meu lucro), o finito, seguirá com ou sem o Rendiconti). Mas, de certa forma, "aposto" meu nome aqui. Falhas no projeto ou no negócio, com certeza, gerarão uma péssima impressão. Mas... como dizia o saudoso e vitorioso Vicente Matheus: "quem sai na chuva é pra se queimar".

Rendiconti :: O Negócio

25 junho 2008

Antes, porém, uma necessária explicação sobre o nome. Rendiconti é um termo italiano* que significa "Prestação de Contas". O utilizo com frequência no finito, para prestar contas de todos os eventos abertos que realizo. A sacada do Guccia na escolha deste nome para sua revista é genial. Surrupio-a sem medo de ficar com a cara vermelha de vergonha.

Aprendemos com os outros, com experiências de outras pessoas. Em aulas, livros, bate-papos presenciais ou virtuais - não importa. Todo aprendizado é um evento social, por solitário que seja. "Social"? É, eu quis dizer que tudo que aprendemos vem de outras pessoas.

Quando invertemos este fluxo, tentando ensinar outras pessoas, de certa forma estamos fazendo uma "Prestação de Contas". É uma retribuição - mas sempre seremos avaliados pelo que agregamos àquele conhecimento adquirido. Por isso o periódico do Círculo Matemático de Palermo se chamava Rendiconti. O conceito é genial. A provocação, impagável!

Por isso não pensei duas vezes ao selecionar o nome desta nova empreitada. Aliás, depois de tantas idéias jogadas aqui, está aqui a primeira que pego para realizar. O título original daquele livro do Domenico de Masi, "Criatividade e Grupos Criativos", é "La Fantasia e la Concretezza". Sabe-se lá porque a Sextante, seguindo o (mau) exemplo das distribuidoras de filmes, não fez uma tradução literal do nome. Não importa. Para De Masi, o criativo não apenas fantasia. Ele também deve ser capaz de concretizar suas idéias. Antecipando a confissão de que não estou sendo nada criativo, topei o desafio.

Para quem pulou o prólogo, explico que tudo começou porque vou publicar meu primeiro livro. Ia fazê-lo da forma tradicional (que tem mais de 500 anos!). Imprimiria uns 1000 exemplares e ficaria aguardando que generosas almas os levassem para casa (ou escritório). Modelo pra lá de ultrapassado: Muita grana parada. Considerando que incentivo a cópia e a distribuição de versões digitais do texto; considerando que as centenas de pessoas que participaram de meus eventos já garantiram (sem custos adicionais) sua cópia digital; e considerando que hoje em dia se lê muito pouco, qual demanda eu teria? Quanto tempo levaria para esvaziar aquela pilha de 1000 volumes?

Mas a questão não é só essa, meramente comercial (ou financeira, como queiram. Aliás, já disse por aqui, não espero ganhar $ nenhum com a venda do livro). A principal questão é outra: trato o livro como se trata um software: ele é vivo - tem versões. A última versão pública é a 0.6. Em breve soltarei capítulos de uma versão que estou chamando de "release candidate". A versão comercial será, obviamente, a 'um ponto zero'. Mas morrerá ali? Duvido...

Agora mesmo trabalho com 3 ferramentas (técnicas) novas, de modelagem, que espero incorporar ao trabalho. Outras surgirão, motivando a publicação das versões 1.1, 1.5, 2.0 e assim por diante. Com tal processo de desenvolvimento, a impressão de grandes volumes (a única que se justifica financeiramente em gráficas tradicionais) seria um tiro no pé. Motivações mais do que suficientes para a criação de um novo negócio. Nasce assim a Rendiconti!


O Modelo do Negócio

Como eu disse, não é nada original. Surrupia sem dó nem medo partes dos modelos da lulu.com e do SafariU, do grupo O'Reilly. Trata-se de uma gráfica e editora do século XXI: só gasta papel e tinta quando o cliente confirma a aquisição de um livro (ou artigo, apostila, revista, etc). Existem dois processos principais:

  1. O autor publica uma obra.
    Ele faz o upload de um arquivo com toda a obra. E tem a possibilidade de configurar diversos parâmetros como: preço, material, tipo de capa, opção de venda da versão digital, extensões da obra etc.
    Quando aprovada pelo editor, a obra passa a integrar o portfólio da loja Rendiconti. Aparecerá na 'vitrine', de acordo com sua classificação.
    Restrições: i) a Rendiconti trabalhará exclusivamente com livros técnicos das áreas de TI (Tecnologia da Informação) e Negócios; ii) a editora se reserva o direito de recusar obras que não atendam o padrão mínimo de qualidade esperado ou que fujam de seus temas principais (veja considerações abaixo).

  2. Um cliente adquire uma obra
    A loja Rendiconti opera como uma loja virtual comum. Há o inevitável "carrinho de compras" e coisa e tal. Claro, brigaremos para criar metáforas mais interessantes e originais. Mas não há muito o que inventar aqui.
    Ops, há sim! O cliente pode personalizar a obra adquirida: capa, tipo de papel, dedicatória, logo da empresa... sempre respeitando as restrições configuradas pelo autor.
    A "contribuição" do SafariU: o cliente pode montar um livro ou apostila inédito, selecionando capítulos das diversas obras disponíveis na loja. Poderá inclusive fazer o upload de algum material seu para ser incorporado. Invenção pequena é bobagem. Personalização tímida é enganação!
    Outra novidade, o processo: a obra só será impressa após a confirmação do pedido. Toda a operação estará baseada em Varginha, Minas. Mas o prazo médio de entrega dos pedidos girará em torno de 3 dias úteis - prazo equivalente ao das lojas tradicionais.
Imaginem, então, as diversas possibilidades (cenários):
  • Um professor pode elaborar um material, mixá-lo ao conteúdo disponível na Rendiconti e gerar apostilas muito especiais para seus alunos;
  • Uma empresa pode elaborar um material de treinamento e terceirizar sua confecção (e até a revisão!). Desta forma, pode configurar para que sua obra não seja pública - ou seja, não aparecerá na vitrine da Rendiconti;
  • Claro, meu livro e seus 12 (?) capítulos estarão ali, exclusivamente ali na loja Rendiconti. Nas mais diversas versões: quer só a parte de modelagem de negócios, ou só o módulo de engenharia de requisitos? Tudo bem. Quer comprar apenas um capítulo? Só a versão digital? Só a apostila? Definitivamente: o cliente manda. E a gente tratará de entregar exatamente o que ele precisa.
É óbvio, espero que vários autores vejam na Rendiconti uma oportunidade de prestar contas, de dar à luz as suas obras. Aliás, neste início de empreitada, é este o meu maior desafio: atrair autores. Claro, respeitarei tudo o que caracterizou a Rendiconti original. Não importa se você é professor ou estudante, doutor ou iniciante. Não importa se você está em Quixeramobim, na Mutuca ou na Lagoa dos Patos. E não importa se você é desenvolvedor, coordenador de projetos, administrador, consultor, professor, estagiário ou estudante. Saca a calda longa? Então, há mercado para tudo - há espaço para todo mundo.


Considerações semi-finais
  • "Não temes que lhe roubem o modelo de negócio?"
    Tsc... que papo mais anos 2000, pré-bolha. Conheces o dito "ladrão que rouba ladrão"? Então, não disse que surrupiei e remixei idéias de duas empresas estadunidenses? Então pq eu deveria reclamar se alguém buscar inspiração aqui?
  • Aliás, espero que busquem bem mais. Como mostrarei com mais detalhes no próximo post, este é um projeto 100% aberto. Todo o código e demais artefatos gerados (inclusive o modelo do negócio) serão disponibilizados com licenças Creative Commons e GPLv3.
  • Portanto, quem quiser copiar, poderá obter bem mais que uma simples idéia. Quer montar sua própria loja? Que tal uma especializada em livros "Boa Vida Boa" (culinária, viagens, esportes etc)? Que tal uma só com obras de cultura inútil? Que tal uma só para escritores renegados? Como eu disse (depois do Chris Anderson), há espaço e mercado para tudo. Já sugeriram até que eu escrevesse um livro só para contar essa história. Pode? Rss... até o próximo!

Epílogo ou Prólogo?

24 junho 2008

Clareando: é epílogo da Trilogia Pré-Histórica (I, II, III). E Prólogo de uma nova história.

Quem por aqui tropeça de forma mais ou menos regular já sabe que estou prestes a publicar meu primeiro livro. Estive prestes a cometer uma incomensurável cagada!

Muito falo, neste pedaço e em meus eventos, sobre Inovação e Criatividade. Ao criticar idéias antigas ou retrógadas, não hesito em engatar um batido: "hmm.. que coisa mais anos 70 (ou 80 ou 90)!". Incoerente pracas, quase cometo um negócio bem anos 50. Para ser mais preciso, bem 1450!!

Me iludia com a pseudo-modernidade de algumas idéias (requisitos fundamentais) que devem caracterizar meu primogênito:

Ok, as idéias são realmente legais, antenadas. Mas, no final das contas, seriam condenadas a viver como uma montanha de 1000 exemplares impressos de um livro. Está aqui o que chamei de "cagada". Não é só uma questão de eco-chatice (quantas arvorezinhas morreriam...), até porque o livro usaria exclusivamente material reciclado. Mas como conviver com tanta grana 'parada'? (Creia, é muita grana - mesmo se vc tem muita. Paga praticamente um carro zero, se você quer ter uma idéia de 'grandeza').

Mas, que sorte, a "cagada" ficou na quase. E a guinada estratégica de 180° acaba de gerar um Projeto e um Negócio. Ambos atendem pelo mesmo nome: Rendiconti!

E, claro, cada um merecerá um post de apresentação.

Mas já? Pois é, com o epílogo (que será publicado na sequência) mostrará, a publicação integral da Trilogia Pré-Histórica é para ontem. Sem trocadilhos! Para quem perdeu a trilha da história:

Não foi por acaso que Domenico de Masi recuperou a história do Círculo Matemático de Palermo em um livro chamado "Criatividade e Grupos Criativos" (de 2002). Aquela associação, fundada em 1884, apresentava em seu núcleo um conjunto de características (ou Valores, como queiram), muito caro nos dias de hoje. Modernos empreendimentos, particularmente aqueles montados para a criação de software livre, apresentam muitas dessas características. Por isso este 3º e último tomo (volume) tratará especificamente delas.

Break-chororô: e duas curiosidades:
  • Guccia, o idealizador do Círculo, não aparece na Wikipedia, nem em sua versão italiana! Fui buscar sua biografia em um site inglês. Parece que ainda hoje os italianos renegam sua importância, como o fizeram na época da fundação do Círculo. Azar dos italianos...
  • Quando Scott Berkun começou a escrever "Mitos da Inovação" ele pediu, via blog, referências e dicas. Quando fui sugerir o livro do De Masi, descobri que ele não tem nenhum título publicado em inglês! Azar dos estadunidenses...
A inovação do Círculo, que De Masi chama de "genial", começa pela sua organização: é uma rede. Flexível e espalhada por todo o planeta - quase 100 anos antes d'algum milico sonhar a Internet. A tecnologia utilizada estava na gráfica (tipografia) que imprimia as Rendiconti e nos barcos, trens e cavalos que distribuiam a publicação nos quatro cantos do mundo. De Masi:
A modernidade inteiramente pós-industrial dessa rede encontrava-se não só na sua estrutura, estranha ao burocratismo e ao formalismo das academias daquela época, como na centralidade absoluta da sua dimensão científica, que era mais importante do que qualquer outra dimensão espúria, com frequência determinante em outras sociedades análogas.
São 5 as características que tornam o Círculo Matemático de Palermo uma organização única, visionária e, como diz De Masi, "pós-industrial":
  • Interdisciplinar: física, engenharia, arquitetura e matemática. O Círculo e, consequentemente, as suas Rendiconti, tratavam de tudo que girava em torno da matemática. Além disso, eram acolhidos "estudiosos das mais diversas inclinações".
  • Internacional: "O Círculo não faz e não fará nunca uma distinção de nacionalidade ou de raça entre os matemáticos". Isso numa época em que o mundo, particularmente a Europa, já fervilhava com suas pseudo-diferenças. Não se tratava apenas de publicar artigos de pessoas dos mais diversos lugares. As Rendiconti também eram distribuídas ao redor do globo.
  • Interclasses: professores universitários e de nível médio tinham direitos iguais. Lógico que se admirava os "matemáticos mais geniais do mundo" mas, no dia-a-dia do Círculo, todos compartilhavam os mesmos direitos (inclusive de voto). Mais: "os jovens eram encorajados e ajudados nos seus estudos". Tanto que muitos estudantes publicaram suas próprias pesquisas na Rendiconti.
  • Gosto Estético: Guccia "sempre privilegiou a qualidade das publicações, a velocidade da impressão, o nível cultural dos amigos e sócios. Em suma, o conteúdo. Mas isso não lhe impediu o culto da forma e da estética".
    Tanto que não poupou esforços para que a tipografia tivesse os melhores recursos da época. As Rendiconti eram belas, agradáveis. Mesmo que boa parte de seu público não se importasse muito com esse 'detalhe'.
  • Voluntariado: assim como no universo do software livre, grande parte do trabalho no Círculo, particularmente dos articulistas e revisores, era voluntário. Não remunerado. As receitas geradas com a venda das assinaturas (300 liras de "contribuição perpétua") eram todas revertidas para a manutenção da gráfica e publicação das Rendiconti.
De Masi conta a história de vários outros grupos que foram esquecidos quando o mundo se colocou de joelhos perante as idéias de Taylor, Ford e afins. As recupera rotulando todas com um mesmo adjetivo: são "pós-industriais". São modernas e mais humanas. Valorizam o indivíduo e não as "massas". Mas foi a história de Guccia e de seu Círculo Matemático que me pegou. E me influencia. E inspira. No epílogo falo mais sobre a inspiração e seus frutos.